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O trompetista apaixonado - Parte 02

– Você tem ideia do que poderia ter acontecido com ela, menino doido? – padre Henrique esbravejava, tomando a frente – O que você iria fazer se ela tivesse passado mal, hein? Responda!

A mãe da menina chorava e perscrutava todo o corpinho dela por algum sinal de mácula. Jubal calou-se e fixou os olhos no chão. “Moleque!” o padre lhe deu um beliscão no couro do braço e só soltou quando viu o rosto do menino se contorcer e suas lágrimas caírem: queria ver desmanchada aquela feição distante e feliz do rosto dele. Recolhidos os sustos, cunhados os ressentimentos, a noite explodiu-se em fogos e barulhos e a festa retomou seu ensejo.

Christi Rochetô Jubal, o trompetista apaixonado, direitos reservados

Jubal passou a semana de castigo e só pode sair no domingo seguinte, mesmo assim para tocar. E isso só porque o pai tomou as dores dele e interveio junto a mãe. Por ela, ele não sairia nem para tocar, nunca mais, estava morta de vergonha pelo que ele fez. Silas, que precisava de Jubal na apresentação dominical, concordou que o pai ficasse no coreto para garantir que o menino não sairia de lá se não para casa.

A canção que Jubal tocou naquele domingo após a pequena fuga era melodiosa e acelerada, tão cheia de expectativa, que acabou deixando todo mundo nervoso a semana inteira. Até o dono da farmácia precisou ser hospitalizado por causa de uma crise de ansiedade, culpa da música. Ele tocou com os olhos bem abertos, caçando a menina entre as pessoas da praça, mas não a encontrou.

Passaram-se outros três domingos sem que ela aparecesse. Nem na missa de natal e nem na festa de ano novo. Jubal estava aflito, se culpando de que algo pudesse ter acontecido com ela por sua causa, por causa da sua inconsequência. Queria ir à casa dela, não seria difícil descobrir onde era, mas com a vigília da mãe seria impossível ele sair. Iria esperar só mais aquele domingo, se ela não fosse à praça vê-lo tocar, ele enfrentaria a mãe e iria descobrir se Rita estava bem, se adoecera ou pior, se esquecera dele. Se ao menos pudesse ver os amigos, poderia tentar enviar uma carta para ela, falando de estrelas e bogaris, e de rios e de árvores, e de animais e de outras tantas flores perfumadas que conhecia. Mas a vigília era serrada, as únicas pessoas de quem podia se aproximar eram seus pais e os companheiros da banda, todos mais velhos, distantes dele.

No primeiro domingo do ano, Jubal tocou uma melodia leve e tranquila, paciente, que logo se converteu num xote alegre e dançante quando ele viu Rita no meio da multidão. Atrapalhou toda a banda quando perdeu a marcação de Silas e perdeu-se no compasso das batidas de seu coração aos pulos. Ela parecia muito mais velha que antes, mas sorria e seus olhos verdes brilhantes ondulavam em água salgada como as ondas da praia que Jubal não conhecia. Ele sabia que se fosse atrás dela iria lhe causar problemas com os pais. Esperou só para vê-la ir-se embora segurando a mão da mãe e olhando para trás ensaiando um tímido aceno com a mão baixa para o pai não ver. Jubal, triste, mal podia esperar o próximo domingo.

Christi Rochetô Jubal, o trompetista apaixonado, direitos reservados

A semana se arrastou entre ensaios e estudos de teoria musical. As férias pioravam sua angustia apaixonada e ele procurava o que pudesse fazer, não para distrair a mente, mas para fazer o tempo passar mais depressa. Já não dormia metade da noite, ficava deitado olhando a luz que contornava a janela trancada e devaneava estórias que nunca aconteceram, onde ele andava pelas ruas madrugada adentro de mãos dadas com Rita e lhe beijava a boca pálida no patamar da igreja do Sagrado Coração.

A saudade enchia esses dias de ausências e lhe doía até mudar alguma coisa de lugar, como se magoasse a ordem das coisas. Lhe doíam especialmente os fins de tarde, quando uma aflição de fim do mundo lhe encharcava o peito e ele se escondia para chorar.

Do sábado para o domingo, no pouco tempo que dormiu, sonhou com ela. Mas a viu diferente, corada, com cabelos castanhos claros encaracolados sobre os ombros. Só a reconheceu pelos olhos cor do oceano da enciclopédia. Eles estavam na rua nova, pertinho do cemitério. Era um lugar estranho do qual Jubal tinha medo. As árvores da rua também estavam diferentes, as folharias volumosas projetavam uma sobra hermética no chão e os postes embaçavam suas luzes como se uma esponja tivesse borrado toda a paisagem de um quadro. Ela vinha até ele sorrindo, os dentes alvos, o olhar diáfano. Ele sentia o toque quente de suas mãos e ela o beijava – primeiro no rosto – depois nos lábios. Jubal queria abraça-la, mas os braços pesavam e ele não os conseguia erguer. Quando acordou, o quarto inteiro rescindia a bogaris. Ele sentiu um peso no peito e o mundo de repente ficou todo cinza da cor de nada. No íntimo, sabia que algo terrível tinha acabado de acontecer, mas evitou o máximo que pôde pensar naquilo.

Vestiu-se vagarosamente com a roupa da banda, remanchando, empurrando a manhã com a barriga. A mãe, ao ver tão cedo se vestindo com a farda de domingo, estranhou:

– Tem roupa limpa não, menino? Ou estais variando já? Tu e teu pai com essas coisas de música ficam doidos e endoidam os outros. Venha comer!

Ele não respondeu, sentou-se à mesa e tomou café calado. Mal comeu. Pegou no quarto o estojo do trompete e saiu pela porta da cozinha para o quintal, sentou-se no batente e retirou com cuidado o instrumento do veludo vermelho que o protegia. A mãe ralhou algo sobre ele tocar tão cedo, mas ele tomou uma flanela e manteve o instrumento calado em seu colo enquanto o limpava com muito cuidado. Passou assim a manhã inteira. Ninguém percebeu que a flanela com que limpava o trompete estava úmida de gotas salgadas do oceano tempestuoso dentro dele.

Almoçou sem gosto e ficou uma boa parte da tarde na mesa da cozinha olhando para o relógio na parede, até dar a hora de ir. Abraçou forte a mãe, que estranhou — ao mesmo tempo gostando— aquele gesto de afeto. O filho não era dado a carinhos. Fez o mesmo com o pai que não foi com ele para o conservatório de música, o encontraria depois na praça, estava ocupado com algo que passava na televisão. Ele saiu de casa com o estojo na mão, andou devagar pelo caminho mais comprido, passou em frente à casa que ele, em sua imaginação, sabia ser dela. Estava silenciosa e trancada, suas janelas, como olhos, pareciam ter uma expressão sisuda, melindrada. Ele dobrou a esquina e entrou por ruas alheias que o levaram sem querer para os pés da igreja do Sagrado Coração. Ali ele teve certeza do pensamento que vinha trazendo dentro de si desde aquele sonho.

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Chegando ao coreto, ele olhou as pessoas e não procurou pela menina, levou o bocal aos lábios e, antes mesmo de Silas lhe dar o sinal, começou a soprar uma melodia lamentosa, profunda, que pesou de tanta beleza no coração de quem ouviu Jubal naquele dia. Era uma melodia contínua, ora depressa e angustiada, ora cadente e de uma beleza triste como um enterro de uma criança. Silas reparou que aquele improviso não possuía pausas. Ele tentou chamar a atenção de Jubal quando percebeu suas têmporas suadas e uma veia protuberante estalando em sua testa. Tentou fazê-lo parar, mas Jubal o conteve com a mão direita enquanto com a esquerda ele apertava os dedos nos pistons do instrumento. Sem interromper a melodia, Jubal desceu do coreto e foi andando em meio a clareira de gente que se abria para ele passar. A melodia seguia, seguia, seguia sem parar, em ondas que se alastravam longe no espaço e no tempo, trazia coisas do passado de volta, flava de lugares inóspitos do mundo, flava de oceano. As pessoas começaram a perceber que ele estava ficando roxo, mas não interviram por não entender que aquilo não fazia parte de ser trompetista. Elas só se afastavam e olhavam. A banda parou e tudo ficou suspenso na melodia de Jubal. De repente um cheiro forte de bogari tomou toda a praça, tão forte e inebriante, um cheiro branco de de-tardezinha, de calçada com as casinhas tudo igual, cheiro de brincar na pracinha, de beijo no rosto de uma menina bonita e de abraço de avó materna, extasiando todas as pessoas ali presentes. Tudo era de uma formosura angelical, e toda a perfeição do mundo saia da campana do instrumento de Jubal.

Quando as pessoas voltaram a si, o mundo estava em silêncio – não a ausência de ruído de alguma espécie – uma entidade do silêncio, algo que se podia pegar com as mãos. Silas estava de joelhos tentando reanimar o garoto magro que estava branco como mármore e encharcado de um suor gelado e pegajoso. Seu pai chegou logo em seguida atônito, e assim que viu o filho, soube que Jubal estava morto. Aquele silêncio foi afugentado por seu grito de dor. Alguém correu para avisar sua mãe e ela chegou despenteada, ainda de avental, a face borrada de lágrimas, os olhos tortos de dor. O padre começou a cantar baixinho uma canção que falava sobre um anjo de Deus que entoava cânticos aos céus em louvor ao Pai, e os soluços foram crescendo por toda a cidade.

Christi Rochetô Jubal, o trompetista apaixonado, direitos reservados

Foi o enterro mais triste do mundo, o silêncio da multidão que seguia o cortejo era ritmado pelo surdo da banda, uma pancada triste cujo eco ia e voltava dentro do peito. Quando o sol começava a se pôr, os sinos de todas as igrejas repicaram notas musicais — ré, ré, sol, ré... — como se dissessem: morreu-um-anjo, morreu-um-anjo...

Como se a vida achasse pouco, um burburinho pranteado se instalou no cortejo pelas laterais e foi se espalhado pessoa por pessoa: não se sabe de onde chegou a notícia de que Rita, a menina doente, também estava morta. Morrera em Natal da sexta para o sábado por complicação da doença. Ninguém soube dizer como, mas cada pessoa ali tinha a certeza que Jubal intuíra a notícia, por isso morrera. Um dos músicos, com outra demão de tristeza, batia no surdo com tanta força e o eco dos sinos voltavam e faziam coro com a oração baixinha que todos entoavam pela morte dos dois anjos, que a praça foi tomada por aquela estranha orquestra, desordenada e aflita, cuja harmonia talvez só Deus pudesse entender. Não se ouvia outra coisa, nem mesmo os pássaros, que, por mais de ano, não tornaram a cantar no céu sobre Itapundé. Junto a tudo isso, o cheiro de bogari empesteava a tarde com uma tristeza que — pelo menos naquele instante — duraria para sempre.


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