O último ato



Era 30 de abril de 1945. Hanna ainda não sabia, mas naquela manhã toda a esperança do povo alemão havia acabado momento em que Hitler explodira sua própria cabeça com um tiro e, enquanto ela caminhava pelos escombros que agora ocupavam toda a Alexanderplatz, perguntava-se como tudo havia acabado daquele jeito.


Observava toda aquela destruição com melancolia e achava impossível que há apenas oito anos ela tivesse desfilado por aquelas mesmas ruas sob aplausos vibrantes, naquele que tinha sido o melhor dia de sua vida.


Ela havia se sentido feliz como nunca antes, afinal, dentre as tantas garotas que faziam parte da juventude hitlerista, ela fora a escolhida para representar Germânia naquele evento que comemorava as glórias do nascente Reich de mil anos e, com seus longos cabelos loiros, sua pele branca como leite e seus olhos profundamente azuis, representava o ideal de beleza a ser almejado por todas as jovens arianas. Do alto do carro alegórico ela podia ver todos aqueles olhos que a reverenciavam quase como se ela fosse a encarnação de uma deusa, enquanto, aos seus pés, a própria blutfahne se estendia.


Estar tão perto daquele objeto mítico e cheio de história era um privilégio reservado a poucos homens e a quase nenhuma mulher e a proximidade daquela que era uma das maiores relíquias do nazismo a deixava extremamente excitada e a fazia sentir-se muito próxima de um êxtase religioso como experimentavam aquelas mulheres cuja devoção as levava a ter visões de anjos e homens santos.


Temendo ser tomada pelo transe, concentrou-se na multidão ao seu redor e, em meio àquelas dezenas de pessoas, identificou os olhos orgulhosos da mãe que derramavam lágrimas de felicidade ao vê-la passar, seus braços estavam presos aos braços do pai de Hanna que, apesar da dor que o ferimento sofrido durante a grande guerra lhe causava, se mantinha ali em pé para poder prestigiá-la.


O próprio Füher estava lá, em seu camarote, com seu cabelo negro, liso e perfeitamente penteado, vestindo seu impecável uniforme marrom assim como os outros membros de seu séquito exclusivo. Goebbels, Hess, Speer, Höss. Apenas Göring em seu exuberante uniforme branco e Himmler em seu temido uniforme negro se distinguiam daquela horda de iguais.


Ao passar por aqueles homens poderosos, Hanna não se conteve e levantou o braço fazendo a saudação nazista. Os olhos do grande líder brilharam ao ver aquele gesto e ela pode ver naquele olhar profundo e magnético o futuro grandioso da Alemanha. A quebra no protocolo foi perdoada quando a multidão acompanhou seu gesto com gritos de Hi Hitler!.


Agora, aquilo era apenas a lembrança distante de um sonho reduzido às ruínas daquela que deveria ter sido a capital do mundo e que havia se transformado em um emaranhado de entulho, concreto e ferragem sob os quais, todas as noites, ela e aqueles berlinenses que insistiam em permanecer vivos, buscavam em vão se proteger da chuva de bombas que os aliados despejavam sobre a cidade.


Todos diziam que Berlim estava prestes a cair, que os aliados se aproximavam pelo oeste, enquanto nada era capaz de impedir a chegada dos russos que vinham do leste, entretanto, por mais absurdo que aquilo pudesse parecer, ela sentia que, enquanto o Füher estivesse vivo e protegido em seu bunker sob o chão de Berlim, ainda havia esperança. Afinal, ele havia lhes prometido um Reich de mil anos e ela havia acreditado com todo o seu coração. Não só ela, como seus amigos e familiares, todos eles haviam se dedicado e se entregado de corpo e alma em busca de da realização daquela Alemanha poderosa e de um mundo governado a partir da capital Germânia.


Então ela continuaria ali. Não fugiria, não deixaria sua cidade para trás, não abandonaria o Füher, não seria como muitos daqueles outrora bajuladores que agora desertavam covardemente e corriam em direção aos aliados, pedindo clemencia e prontos a trair a confiança de seu líder.


Não!

Ela seria forte como uma mulher alemã deve ser e ficaria ali, até que o Füher mais uma vez realizasse um de seus milagres e, num surpreendente último ato, salvasse a Alemanha de um fim trágico e vergonhoso.





Nota Histórica: Durante a tentativa de golpe conhecido como o Putsch da Cervejaria, em que o recém criado partido nacional-socialista tentou tomar o poder na região da Baviera, uma das bandeiras que ostentavam a suástica acabou manchada pelo sangue de alguns dos nazistas mortos na ocasião. A bandeira ficou conhecida como blutfahne e, além de inspirar o uso da cor vermelha em todas as bandeiras do partido desde então, passou a ser considerada como uma “relíquia” que, inclusive, era tocada pelos novos membros durante o ritual de ingresso na SS.


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