• Elisa Ribeiro

O velho

Acordei suando, nervoso. Há tempos o maldito velho não me incomodava.


Olhei o relógio: vinte para as quatro da manhã. Não consegui pegar no sono de novo, medo de o pesadelo continuar. Sai da cama às seis. Só pensava na Luísa enquanto me aprontava para o colégio, precisava saber se ela também tinha sonhado.


Não consegui me concentrar nas aulas. Matemática, física, história, pior que um pesadelo. Lembrei que o transporte do colégio passava perto da casa dos meus tios, pais da Luísa, e decidi passar pessoalmente lá, melhor do que ligar.


Era quase uma da tarde quando toquei a campainha. Minha tia me recebeu.


— Ei, Pedro! Que surpresa! Aposto que veio falar com a Luísa, não é?


Disse que ela estava no quarto. Fui entrando. Eu era da casa.


Tomei um susto quando a vi. O cabelo comprido dela havia sumido e se transformado numa penugem curta rente à cabeça.


— O que aconteceu com seu cabelo, prima? – não consegui me conter, falei do cabelo antes de cumprimentá-la.


— Cortei faz uns dias. Está na moda! Gostou?


Achei que ela estava parecendo com os passarinhos feridos que recolhíamos do chão, no sítio do vovô, quando tinha tempestade, para depois cuidar até que se recuperassem.


— É... Diferente. – respondi querendo encerrar o assunto. A Luísa pareceu entender e eu fiquei feliz em perceber que nossa antiga conexão continuava.


— Acho que sei por que você veio aqui...


— Sonhei com o velho, Luísa. Um pesadelo medonho.


— Eu também sonhei, Pedro. E foi um sonho bem estranho...


— No meu, ele me perseguia. Disse que minha hora tinha chegado, depois deu uma risada asquerosa com aquela boca murcha, os dentes todos manchados Acordei molhado de suor, por volta das quatro da manhã, depois não dormi mais.


— No meu, o velho estava deitado numa cama. Eu tentava falar com ele, ele me ignorava. Acordei angustiada, mas não olhei que horas eram. Depois dormi um sono de morte. Até perdi a hora.


— O que nós vamos fazer se esses pesadelos voltarem, Luísa? – foi a pergunta idiota que eu fiz e me arrependi de imediato.


— O que a gente pode fazer contra um sonho, Pedro? Só rezar, pedir a Deus para afastar essa assombração da nossa vida...


— Meninos, o almoço está na mesa – minha tia interrompeu nossa conversa. – Você almoça com a gente, Pedro?


Disse que sim, mas quando sentei à mesa e vi que a comida era rabada ensopada com agrião e batatas, dei uma desculpa esfarrapada e corri para casa.


Ao se despedir de mim a Luísa falou uma coisa estranha, mas como eu estava de saída e ela com fome, achei melhor não retrucar. Disse que no dia seguinte, bem cedo, passaria para me visitar. Fiquei pensando que raio de visita seria essa, já que de manhã, ela, assim como eu, tínhamos colégio.


***


Passei o resto do dia tranquilo, sem me lembrar do pesadelo ou do velho. Conversar com a minha prima sempre me acalmava.


Eu e a Luísa sempre fomos muito ligados. Nascemos no mesmo dia, praticamente no mesmo horário. Segundo minha mãe, não houve combinação, foi coincidência mesmo. Pelas contas, eu deveria ter nascido duas semanas mais tarde.


Embora primos, quando crianças, brincávamos mais entre nós do que com nossos irmãos. Nossos pais achavam que era porque tínhamos a mesma idade, mas na verdade o que havia mesmo era uma conexão muito forte e inexplicável entre mim e ela. Concordávamos em tudo, nunca brigávamos, mas o que mais nos surpreendeu foi quando descobrimos que tínhamos pesadelos comuns.


Foi durante um final de semana no sítio dos nossos avós que nos demos conta disso. No meio da madrugada, enquanto todos na casa dormiam, nos encontramos os dois, assustados e enojados, na cozinha procurando álcool para passar nos braços. Um velho asqueroso, com dedos retorcidos e unhas grandes, sujas e tortas, tinha nos agarrado no pesadelo que ambos havíamos sonhado, cada um na própria cama, minutos atrás.


Ficamos na cozinha conversando, morrendo de medo de voltar a dormir e a perseguição continuar, e nessa conversa descobrimos que já vínhamos sendo perseguidos por aquele mesmo velho em nossos sonhos há dias. Aquela, no entanto, fora a primeira vez que ele havia conseguido nos alcançar e por as mãos nojentas sobre nós. Nas semanas seguintes, ao sonharmos novamente com ele, nos demos conta de que, como desconfiávamos, nossos pesadelos aconteciam sempre, estranhamente, à mesma hora.


Os sonhos sincronizados persistiram por um tempo e pareciam ter uma espécie de continuidade. Como capítulos de um seriado ruim, era o que a Luísa falava, em que esperávamos que algo surpreendente acontecesse e no final não acontecia nada. Basicamente o velho nos perseguia e ameaçava com maldades que nunca se concretizavam.


Até que, do mesmo modo inexplicável como haviam surgido, os pesadelos cessaram. Restavam apenas como mais uma lembrança entre mim e a Luísa, tal como as brincadeiras e as traquinagens que aprontávamos, até ressurgirem desgraçadamente essa madrugada.


***


A intranquilidade chegou junto com a noite. Sentia medo de dormir e o pesadelo recursivo me atormentar. Fiquei estudando até um pouco mais tarde do que costumava. Depois, liguei a TV e fiquei assistindo um filme, tentando relaxar a mente, baixar a ansiedade. Diminui o som da TV e fiquei quietinho na cama de olhos fechados. Também rezei um pouco como minha prima recomendara. Enfim, acabei vencido pelo cansaço.


Dormindo, comecei logo a sonhar. No sonho, caminhava por um corredor branco cujo fim eu não enxergava. Não era exatamente branco, um cinza sujo, as paredes manchadas, a pintura quebrada aqui e acolá. Dos dois lados do corredor havia portas, como num hotel. As portas também eram cinza, um tom mais escuro do que as paredes. Em cada porta havia uma plaquinha com um nome. Embora não reconhecesse os nomes, eles soavam familiares. Em uma das placas, o meu nome e sobrenome: Pedro Luis Albuquerque. Não pude evitar, entrei por essa porta.


Na salinha, também cinzenta, havia uma mesa e duas cadeiras encostadas em uma das paredes, sobre elas um quadro sem graça. Defronte a essa parede, a porta entreaberta de um banheiro que exalava um cheiro desagradável. O cheiro era tão forte e tão ruim que por um instante fiquei confuso, em dúvida se aquela experiência era mesmo um sonho ou realidade.


A salinha se abria mais adiante em outro ambiente. Ao entrar, vi que se tratava de um quarto. Havia um sofá cama e um pequeno armário, além da cama alta com uma mesinha ao lado e uma TV em frente. Na TV, passava o mesmo filme que eu havia acabado de assistir antes de cair no sono. E na cama, dormindo esparramado e roncando, estava o velho. Assim indefeso, não me causou medo, só asco.


Nunca o vira dormindo, talvez sonhasse... Aparentava uns noventa anos. Aproximei-me da cama. Naquele abandono do sono, tão vulnerável, seria fácil estrangulá-lo. Aproximei minhas mãos do seu pescoço, mas ao encostá-las na sua pele flácida e quente, ele abriu os olhos e agarrou meus pulsos gritando.


— Rá-rá-rá, te peguei, garoto!


Acordei alvoroçado e molhado de suor. Olhei o relógio – quatro e dez da manhã. Guardei bem para checar de manhã com a Luísa a coincidência de horário.


Minha bexiga ardia, precisava me aliviar, fui até o banheiro.


Nem sei por que acendi a luz. Normalmente prefiro o escuro quando acordo no meio da noite, para não espantar o sono. Quando terminei de urinar, virei de cara para o espelho e lá estava ele, aquele velho medonho, me espiando. Não pude conter o grito que escapou da minha garganta um segundo antes de eu cair desmaiado, um baque seco no piso gelado.


Voltei a mim num quarto que não era o meu, sem forças, tampouco ânimo, para me levantar da cama. Logo apareceu um enfermeiro.


— Bom dia, senhor Pedro. Como está se sentindo hoje?


Fiquei calado questionando a lógica daquela situação. Como assim? Eu, “senhor”? Um garoto de dezessete anos?


O sujeito continuou.


— Tem visita para o senhor. Mas antes vou fazer sua higiene.


Lavou meu rosto, escovou meus dentes, penteou meu cabelo dizendo que a barba, faria no dia seguinte. Deixou uma bandeja com café com leite, suco, pães e frutas do lado da minha cama e saiu desejando um bom dia. Minutos depois entrou uma senhora com a cara toda amassada de rugas e um cabelo que parecia as penas rotas de um pardal doente.


— Bom dia, Pedro! Como você está se sentindo hoje?


Como me mantive em silêncio, ela continuou.


— A enfermeira da noite falou que você passou mal de madrugada, que gritou e que tiveram que te socorrer.


Fiquei me perguntando quem seria aquela senhora, o que eu fazia naquele quarto de hospital, que raio de barba era aquela que o enfermeiro disse que faria no dia seguinte, em mim, um adolescente praticamente sem pelos. A velha não parava de fazer perguntas, com uma voz horrorosa, voz de velha, esganiçada.


— Quer que te ajude a comer? Que ligue a televisão? Ou prefere conversar um pouco sobre alguma coisa?


Resolvi perguntar quem era ela e o que eu estava fazendo naquele hospital. A voz saiu como um sussurro.


— Pedro, eu sou a Luísa, sua prima, não lembra? Você está nesse hospital há três meses, desde que começaram os delírios e a febre.


Por um instante achei que ainda era o sonho, que não havia acordado e pedi que a velhinha que dizia ser a Luísa me emprestasse um espelho. Ela sacou da bolsa um estojo de maquiagem e abriu. Olhei-me no espelhinho de aumento e vi o velho medonho me olhando, com uma careta que podia ser de pena ou de escárnio.


Tentei gritar que aquele velho não era eu, mas minha voz não saiu, havia um buraco no meu pescoço por onde o som escapava. O velho maldito havia enfim me pegado, empacotado toda a vida que eu viveria em uma dobra de tempo que eu não entendia. Ainda não havia estudado.

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