O velho anel





More than this Além disso You know there's nothing Você sabe que não há nada More than this Além disso Tell me one thing Me diga uma coisa More than this Além disso You know there's nothing Você sabe que não há nada More Than This - 10.000 Maniacs

Sobre a mesa da sala a pequena caixa está aberta. Dentro, um embrulho em papel pardo manchado. No interior mofado do velho papel repousa um anel de metal vermelho, com uma pedra escura semelhante a carvão. Junto da caixa, um bilhete um tanto quanto amassado e borrado, todo escrito à mão. "Cara Nina, minha amada e esperta bisneta, se você está lendo isso eu provavelmente já não estou mais com vocês. Eu escrevo isso com o intuito de lhe fazer saber do último presente meu para ti. Não é muito, mas ele irá mudar tudo o que conhece, assim como transformará a visão que você tem do mundo."


Ass: O Caixeiro.

Nina não se lembrava muito da imagem do bisavô, mas lembrava bem das histórias contadas pela família. Ele era caixeiro viajante e andava literalmente pelos quatro cantos do país, trazendo objetos estranhos e contando histórias sinistras. Certa vez, ainda bem jovem, trouxe uma pequena coleção de bonecas vodu compradas numa vila afastada da civilização, e ao tentar presentear a bisavó de Nina ouviu um sonoro não. No mesmo dia as estranhas bonecas foram queimadas. Mas como tudo tem seu começo, o gosto por objetos e histórias estranhas de seu avô tinha começado ali, e em pouco tempo a coleção tinha crescido até ocupar todo o porão de sua casa, onde não incomodava tanto sua esposa e no qual seus filhos e netos por muitos anos não ousaram entrar. Foram mais de cinquenta anos juntando objetos estranhos naquele medonho porão até o dia da morte de sua esposa e do estranho incêndio que levou a casa e sua preciosa coleção. Depois daquele fatídico dia, o velho caixeiro nunca mais foi visto. O estranho bilhete deixara Nina curiosa, assim como o próprio anel vermelho. Era uma peça diferente e chamativa, porém a jóia que lhe estava cravada não era nada convidativa, uma pedra feia, bruta e de aparência bem ordinária, contrastando com a beleza viva do brilho do metal vermelho. Era lindo seu reflexo brilhante contra a luz, tal como a perfeição do desenho simples de suas linhas. Nina olhou mais de perto e ficou tentada a usá-lo, mas logo desistiu e o devolveu ao centro rasgado do velho embrulho. Ela tinha mais coisas para fazer naquele dia e não seria um velho anel que a iria atrapalhar. Abandonou o embrulho na sala, saindo em direção da cozinha, porém escutou algo. Era como uma suave voz falando bem baixo, quase num sussurro discreto. Voltou-se para a sala e caminhou devagar de volta até o anel, ouvindo a voz um pouco mais clara. Era um idioma aparentemente desconhecido, quase como um cântico, uma prece sedutora de charme penetrante, que ficava mais maciça e macia a cada passada. A voz agora parecia estar dentro de sua cabeça, desenhando cada palavra no fundo da massa cinzenta e mole de seus miolos, tal como um pedido tentador, uma súplica, onde dezenas de versos em antigas línguas estranhas se convergiam em uma única palavra de seu idioma natal:

"Use, use..."


Com espanto, Nina percebeu que estava novamente em frente à mesa da sala, e o anel já num de seus dedos. As vozes estranhas cessaram e houve um curto silêncio. Seus olhos se voltaram para a jóia ela sentiu frio. Ao seu redor tudo havia desaparecido e sob seus pés um precipício infinito e escuro se derramava. Não havia casa, não havia sala, não havia mais nada. Estava ela agora sozinha no vazio. Uma leve luz se fez sobre sua cabeça, ela então olhou pra cima e viu algo que pouquíssimos humanos se atreveram a olhar. Grandes olhos amarelos, do tamanho de casas lhe observavam pacientes e frios lá de cima. Aquilo era tão alto quanto montanhas feitas de medo e tão insondável como a densa escuridão do espaço. Imóvel, a criatura observava Nina paralisada pelo terror sinistro de sua bestial presença. A coisa riu, e mesmo daquela altura Nina pode ver o interior das horríveis bocas do monstro. Mares de ossos secos sacudiram em ondas barulhentas, vindas de dentro das pútridas bocas com dentes-garras daquela abominação titânica. Eram ossos de milhares de criaturas que Nina não ousava sonhar o que foram em vida. Havia universos inteiros ali, universos mortos. A mulher tremeu coberta pelo medo profundo ao contemplar a terrível existência daquilo, ajoelhou-se e chorou por saber seu destino. Foi quando algo desceu dos olhos da coisa. Uma chama de dourada e cheia de olhos postou-se defronte a Nina, então uma voz como de uma legião imponente falou: - O que darias pela oportunidade de caminhar entre os vivos outra vez sem temer a morte? Qual seria tua paga pelo toque misericordioso da eternidade? Responda agora ou morra! Nina não respondeu, apenas pensou assustada, ainda tremendo sob o amarelo sinistro daqueles olhos e suas bocas bestiais. Mas não foi preciso dizer. A abominação leu todas as palavras assim que a mulher cessou o pensamento. - Assim seja como tu desejas criatura mundana, o desejo de teu coração será saciado, e teu medo será tomado de ti, porém o preço justo será cobrado. Não te preocupes, quando o fim de todos os mundos chegar por minhas mãos tu estará entre os poucos ainda de pé, reinando imortal comigo. Agora vai e retorna para a pocilga que é teu universo e levas a chave. O tempo certo chegará, e tu e teus novos irmãos saberão o que fazer. E dizendo isso a chama entrou com fúria o peito de Nina, a consumindo com uma dor lancinante, que por um segundo pareceu uma eternidade, então ela acordou. Ao abrir os olhos percebeu estar em seu quarto, em sua cama. Num impulso correu até a sala, olhou sobre a mesa de centro esperando encontrar algo, mas não havia pacote algum ali. Nenhum anel também. Suspirou aliviada. Tinha sido apenas um sonho estranho. Resolveu tomar um banho para tentar relaxar depois daquilo. No caminho, passou pela cozinha e pegou uma grande faca numa das gavetas, indo até o banheiro em seguida. Despiu-se e calmamente, enfiou a faca no centro do ventre e a puxou com força usando as duas mãos até acima dos seios. Rapidamente uma torrente de sangue escuro saltou da fenda. Nina pareceu não sentir dor alguma. Com as mãos ensanguentadas forçou uma abertura no peito, afastando pouco a pouco as costelas de seu centro. Lá de dentro brotou uma pequena luz amarelada, e no espelho ela viu a pequena abominação cheia de olhos amarelos agarrado a seu coração. Ela sorriu enquanto olhava o anel coberto de sangue, fechou a ferida e lavou-se, arrumou as malas e depois partiu. Iria encontrar o bisavô, ouvir as ótimas histórias sobre outros mundos e agradecer pelo belo presente.



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