O chamado do Corvo



A menina estava muito longe de casa e sentia-se tão perdida como quando acordava no escuro depois de um pesadelo. Estava com muita fome, sua última refeição tinha sido um naco de pão preto e bolorento na noite anterior e desde aquela manhã, quando saíra de casa fugindo da morte, a única coisa que tinha no estômago era o chá amargo que havia encontrado sobre o fogão onde os últimos pedaços de lenha terminavam de queimar.


Enquanto engolia a bebida morna percebeu que, apesar de não ter sido alimentado, o bebê já não chorava mais. Aquilo a fez entender que, se continuasse ali, o silêncio a alcançaria também.


Faminta, saiu à procura de algo capaz de aplacar a dor da fome. Sabia que não encontraria nada no que restara da vila onde vivia com a mãe e o bebê. Não havia mais ninguém ali depois que os poucos que não morreram de fome decidiram partir, deixando para trás aquele lugar amaldiçoado.


Mesmo quando os últimos moradores se foram, já há vários dias, a mãe se negou a deixar o povoado enquanto o marido não voltasse. A menina não acreditava naquela ilusão, estava certa de que o pai não voltaria para buscá-las, então, naquela manhã, enquanto a mãe estava prostrada sobre o bebê silencioso, embrenhou-se na floresta com a esperança de encontrar um coelho gordo que a mãe transformaria num guisado espesso e cheiroso e aquele pensamento fez sua boca salivar e o estomago doer com mais força.


Caminhou por muito tempo sem encontrar coelhos ou qualquer outra coisa que pudesse lhe servir de alimento. A cada passo, sentia-se mais fraca e, naquele canto do mundo onde nenhum raio de sol conseguia atravessar a copa das árvores, seu corpo frágil tremia impulsionado pelo frio e pelo medo.


De repente, a floresta lhe pareceu um lugar assustador, cheio de sons estranhos - uivos chorosos, bater de asas, pios e o farfalhar do vento – que a perturbavam. Começou a adivinhar em cada canto olhos que a vigiavam, imaginando seres que se escondiam na escuridão e que despertavam para atacá-la. Apavorada, decidiu voltar para casa, lá ao menos estaria segura e poderia se aquecer ao lado do fogo. Tentou encontrar o caminho de volta, mas de repente percebeu que não importava para onde olhasse, tudo era exatamente igual. Ela não teve a menor ideia de qual direção tomar.


Seu raciocínio começava a se turvar e, enquanto caminhava a esmo, teve certeza de que a floresta a envolvia num abraço indesejado com seus galhos longos e espinhos que perfuravam sua pele. Dominada pelo cansaço, sentou-se na relva sentindo que árvores ao seu redor arranhavam, feriam e violavam seu corpo.


Quis chorar, mas era orgulhosa demais. Encolheu-se num canto e esperou.


Foi despertada pelo crocitar de um pássaro grande e negro que a observava com seus minúsculos olhos escuros de uma maneira tão hipnotizante que, quando ele voou se afastando dali, ela levantou-se e o seguiu.


O pássaro movia-se com rapidez enquanto a menina corria facilmente por uma longa trilha aberta na mata. Não sabia para onde ia, mas continuava a seguir aquela ave de penas negras e olhos lúcidos, adentrando cada vez mais na floresta, até que chegou a uma clareira iluminada pelo que restava da luz do sol que já se punha.


A menina maravilhou-se ao encontrar o pomar de macieiras carregadas e, sem se preocupar com coisa alguma, correu em direção às frutas vermelhas. Em poucos minutos devorou várias maçãs e só notou que havia alguém ali quando sentiu o toque suave em seu ombro.


Virou-se assustada e se deparou com uma jovem de pele muito branca, cabelos curtos e escuros que perguntou sorrindo:


- Você está com fome?


A menina respondeu fazendo um sinal afirmativo com a cabeça, a boca ainda cheia de pedaços de maçã.


- Então vamos jantar, estávamos apenas te esperando...


- Estavam me esperando? – Perguntou enquanto seguia a jovem através de uma horta repleta de nabos, cenouras, cebolas e principalmente abóboras gordas e amarelas, em direção a um pequeno chalé escondido em meio à sombra das árvores.


- Meu irmão te viu na floresta – Explicou a jovem ao entrarem na casa onde a menina foi recebida pelo calor do fogo e pelo aroma de comida bem-feita.


Seu estomago protestou com um som alto implorando por uma refeição e a jovem e ela riram da situação.


- Me chamo Luíza e aquele é meu irmão Jack – Apresentou-se indicando o garoto muito pálido que estava sentado em um sofá na penumbra próximo ao fogo.


- Você disse que ele me viu na floresta, mas eu não o vi... ele também estava lá?


- Ele te viu e me disse que você estava faminta, mas ele não estava lá, ele não precisa sair daqui para ver o que acontece na floresta... - Ao perceber a incompreensão da menina, a jovem explicou - Jack é especial, ele é cego, mas pode ver coisas que pessoas como nós não podem.


A menina olhou com curiosidade para o garoto que parecia ter sua idade e só então percebeu os olhos leitosos escondidos sob o cabelo liso e negro que se derramava sobre sua testa.


- É como um dom... – Afirmou a menina impressionada.


- Não! – O menino falou pela primeira vez – Não é um dom, é um flagelo.


- Meu irmão sofre porque pode ver aquilo que já foi e aquilo que ainda será, e isso o entristece.


- Bem, não deve ser pior do que a fome – sentenciou.


A jovem deu de ombros e convidou-a a sentar-se à mesa e servir-se. Havia mais comida ali do que ela se lembrava de ter visto em toda a sua vida. Queijos, tortas, bolos, doces e um grande jarro de leite branco e espumado que ela devorou lambuzando os dedos até se enfastiar.


Libertou-se da fome que a acompanhava há muito tempo e acabou por esquecer-se completamente do bebê esquálido e da mãe raquítica.


- Ele não come? – Perguntou quando já não lhe cabia mais nada no estomago.


- Sim, mais tarde...


- O que aconteceu com ele? Porque os olhos dele são assim? – Quis saber a menina.


- Não sei, ele simplesmente nasceu assim e devo cuidar dele. É o que eu faço. Olha, você pode passar a noite aqui se quiser e amanhã te ajudo a voltar para sua casa, o que acha?


A menina aceitou, não queria voltar para a fome e o frio da floresta, gostaria de poder ficar ali para sempre, com aquela jovem de olhar penetrante e sorriso gentil, cercada de comida e calor, e, enquanto esperava o sono chegar acomodada no sofá macio, planejou oferecer-se para ajudar Luiza com os trabalhos da casa em troca de abrigo, talvez ela aceitasse... E, sonhando com aquela nova vida, adormeceu.



Acordou assustada em meio à escuridão absoluta sentindo uma forte dor de cabeça. Tinha sonhado que um enorme pássaro negro com olhos leitosos como os de Jack bicava os seus olhos. No sonho, não sentia dor, mas havia sentido de maneira muito real o bico do pássaro, fino como uma agulha, perfurando sua carne de onde sangue e lágrimas escorriam e se misturavam.


Olhou ao redor, mas a escuridão à sua volta era tão absoluta que ela teve a sensação de que seus olhos estavam fechados, forçou as pálpebras tentando arregalar os olhos e percebeu que, por mais força que fizesse, elas não se abriam.


Levou as mãos ao rosto e sentiu a linha grosa e áspera que, numa costura bem-feita, mantinham seus olhos fechados.


Levantou-se com uma forte sensação de atordoamento e correu desesperada implorando por ajuda, tropeçando e trombando em árvores e galhos secos e, enquanto chorava e gritava em meio ao pânico, perdeu-se para sempre naquela noite. Noite que só existia para ela e que agora seria toda a sua existência.

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