Olhos do demônio





Minha laranjeira verde, por que está tão prateada? Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço Enquanto o caos segue em frente Com toda a calma do mundo Sereníssima - Legião Urbana

A mulher olhou os olhos de morte do assassino do filho. Não havia misericórdia neles, do mesmo modo que não havia nos dela. Ao reconhecê-la ele riu, riu num sorriso debochado de canto de boca. A justiça simplesmente o deixava rir. Estavam no corredor quase vazio, já bem longe da sala de julgamento, o qual ela não fora porque já previa seu infame resultado. Liberdade ao assassino e a prisão de uma morte perpétua para uma simples criança inocente. Aquela área era quase sem movimento e já um pouco afastada do eixo central do prédio, onde geralmente era usada para escoltar acusados de maneira rápida pra dentro e para fora do local. Ao aproximar-se do acusado o policial que o conduzia se pôs um pouco a frente do acusado e disse a ela: - Por favor senhora, afaste-se. - Só quero mostrar uma coisa para ele. - disse a mulher de cabelos pretos abrindo a bolsa que carregava. Por instinto o policial colocou sua mão sobre o coldre, liberando sua arma em seguida. A mulher não deu atenção e remexeu o interior da bolsa por alguns segundos. Após vasculhar um pouco entre o que pareciam ser algum embrulho escuro ela retirou uma pequena foto dobrada. Nela, uma pequena criança ria, sentada sobre pequena ponte de madeira à beira de um lago. Ao fundo uma grande floresta a se perder de vista. Pareciam férias, e o garoto parecia muito feliz. O policial relaxou um pouco sua posição e olhou de relance para a advogada do assassino que os acompanhava. Ela pareceu tensa. - Ele só tinha cinco anos. Por que você tinha que fazer isso? - não havia nenhuma emoção naquelas palavras. - Senhora, desculpe, mas ele não deve responder nenhuma pergunta agora. - explicou a defensora. - Não estou falando com você. - disse seca, sem olhar para a mulher a seu lado. - O que você quer saber? A voz fria do monstro chamou a atenção da mulher que o acompanhava. O homem tinha um cabelo grande, solto e cortado de maneira desleixada. Parecia ser do tipo que não se importava com muita coisa. - Você não tem que responder nada a ninguém. Seu processo vai ser cumprido em liberdade, então não precisa dizer uma só palavra. Ouviu? - Isso vai adiantar de alguma coisa pra você? - perguntou ele, ignorando completamente sua defensora. - Talvez. - Já basta. - falou a advogada loira, já olhando torto para o policial. - Acho que você nunca vai saber. - ele deu os ombros, sorrindo. - Chega. Policial, temos que ir. - ordenou com firmeza a advogada. O sorriso dele era totalmente amarelo, com alguns dentes tortos e escuros, tal como um animal velho e vadio. Já cansada daquilo a advogada indicou com a mão o caminho do corredor à frente. - Era o que eu precisava saber. - falou a mãe em voz baixa. Os três começaram a se mexer para desviar seu caminho da mulher. A partir dali tudo passou em câmera lenta. Uma lágrima pesada e solitária correu preguiçosa pelo rosto marcado daquela mulher sofrida. A foto por sua vez voltou à bolsa, e de lá saiu um pequeno revolver apontado direto para a cabeça do assassino num movimento ágil. O policial reagiu tentando tirar sua pistola contra a mulher, porém não foi rápido o bastante. A advogada deu dois passos para trás impressionada com toda a cena. - Larga! - gritou ferozmente para o policial, apontando a arma agora para seu torso. - Cê é muito doida dona, devia se tratar. - desdenhou o bandido algemado, ainda com um pequeno sorriso no rosto. - Por favor, largue a arma ou eu atiro. - Calma senhora, não faça nada impensado. - pediu o policial ainda com a mão próxima do coldre. - Você deveria me deixar fazer isso. Você não está do lado lei? - Não, isso não é justiça, é só vingança. - Essa justiça que você fala é a mesma que vai deixar um monstro desses livre. Isso não tá certo! Ele está livre pra fazer tudo isso de novo, e com outros inocentes. Você faz ideia do que é isso? - Isso não somos nós que decidimos, então largue essa arma agora, ou eu terei que atirar! - Numa coisa o senhor pode estar certo, talvez isso seja apenas vingança. Mas é minha vingança. - O lugar está cheio de policiais, não há como sair daqui. É melhor pensar nisso. - Coloque sua arma no chão agora e se afaste devagar com as mãos aonde eu possa ver. Eu não vou pedir de novo. - a mulher exigiu, impassível. O policial obedeceu, colocando a pistola no chão e recuando em passos curtos. Ela foi até a arma, a afastando do centro dos quatro com um pequeno chute em direção a lata de lixo um pouco mais atrás de si. O metal escovado tilintou no choque. - Não ouviu o homem? Não tem como fugir daqui sua maluca do caralho. - Quem disse que eu quero fugir, seu merda? - O assassino estranhou aquelas palavras. Agora a mulher tinha um ódio vivo estampado nos olhos. - Já faz seis anos que você matou meu filho. Ele deveria ser um rapazinho agora. - Sua voz quase falhou por um momento. Então continuou. - Nesse tempo também perdi meu marido para uma doença grave. Isso também quase me matou, mas o que não nos mata só nos fortalece. Não é o que dizem? - ninguém ali respondeu. - Foi nesse tempo que para não morrer de depressão comecei a me dedicar a um pequeno passatempo investigativo. Passei muitos meses pelas maiores favelas dessa cidade, andei pelos becos mais podres e vielas cheias de lixo e esgoto. Foi um trabalho duro, nojento e a maior parte não deu em muita coisa. Mas tive minha recompensa. - a mãe jogou a bolsa que carregava para advogada. A mulher a segurou assustada, a mantendo com as mãos trêmulas sobre o blazer escuro sem saber o que fazer. - Seu cliente disse que não tinha parentes próximos. Pais falecidos e sem irmãos. - nervosa, a magra advogada parecia não entender. - S-sim.. Algumas pessoas que passavam mais ao fundo do corredor pareciam curiosas tentando ver melhor a cena ao longe. Lentamente mais gente interessada chegava. - Isso não é verdade. Ele tem uma meia irmã na cidade. - Do que você tá falando sua vadia pirada? - o homem de sorriso amarelo falou. - Nervoso agora? Pensei que você fosse um monstro frio. - um sorriso afiado brotou na face da mulher. - O nome dela é Rita, e sempre que podia ela o escondia após cometer seus crimes. O marido dela era um pequeno traficante da comunidade que morreu tempos atrás numa troca de tiros com a polícia. A advogada assustada tentava processar aquelas novas informações, mas ainda não entedia o que diabos aquela mulher estava tentando comprovar. - Como ela estava desempregada e com um filho pequeno pediu ajuda para o irmão, que em troca de proteção e um lugar para se esconder a ajudaria com parte do dinheiro de seus roubos. - Acho que você tá ficando louca, eu não conheço ninguém nessa cidade de merda. Isso tudo que você tá falando não faz diferença, porque eu tô livre e vou me mandar daqui. Diferente de você. - Você é mesmo corajoso. Não tem medo de morrer? - Quis saber a mãe. - Morrer todo mundo vai dona, mais acho que hoje não é meu dia. - Por que não seria? - Acho que não tem coragem de puxar esse gatilho, vai ver nem tem balas nesse ferro. Talvez seja até de brinquedo. - Será? - Eu acho. Você não tem cara de quem faz esse tipo de coisa. - A mulher ficou calada por alguns segundos, logo depois engatilhou o revolver como alguém que já tinha treinado aquilo várias vezes. - Talvez. - disse ela, lhe apontando a arma. - Isso não vai mudar em nada sua situação. Largue a arma e tudo ficará bem. - o policial falou, com as duas mãos levantadas, tentando aos poucos chegar perto dela. - Eu prometo que você ficará bem. Confie em mim. - ele fez um movimento abrindo a mão direita estendida, como se pedisse a arma dela num gesto gentil. - Por acaso o senhor tem filhos senhor policial? - ela quis saber. - Não. Apenas dois sobrinhos, que são quase como.. - Não, não é a mesma coisa. Por mais que o senhor ache que são como filhos e trate-os assim, eles jamais serão. Um filho é diferente, meu pequeno João era diferente. Eu o tive numa gravidez de risco, quase morri no parto. Por causa disso eu não pude ter mais filhos. Agora eu não tenho nada. Houve um silencio tenso, a mãe pareceu um tanto alheia, como se perdida em pensamentos tristes. Nesse instante o policial avançou mais rápido. Não mais rápido que o pequeno taurus empunhado pela mulher. O tiro abafado ecoou pelo longo corredor, seguido de um urro severo de dor. A pequena platéia que se formava ao fundo se dispersou rápido, procurando abrigo onde fosse possível. Gritos e berros eram escutados ao longe. O circo estava armado. Agora era questão de tempo a segurança do lugar estar ali. No chão do corredor o policial respirava com dificuldade, caído com uma das mãos sobre o colete. O disparo o tinha acertado bem próximo ao peito, mas graças aquela proteção ainda estava vivo. No susto, a advogada loira derrubou a bolsa da mãe. Algo mole pareceu bater no chão do corredor. Com o impacto do tiro a queima roupa o policial foi lançado um pouco para trás, caindo com uma dor insuportável, já fora de combate. - Eu disse que não ia pedir duas vezes, e se quiser ver seus sobrinhos de novo acho melhor não sair daí. - ele não respondeu, limitando-se a tentar respirar pausadamente, apesar da intensa dor no peito e costelas. O assassino segurou a respiração por um momento. Algo parecido com medo começava a transparecer em seus olhos. - Falei pra ela que era de uma ONG que ajudava mães carentes e bebês recém-nascidos em comunidades pobres. Ela não acreditou muito de inicio, mas em pouco tempo passei a ir semanalmente visitar ela e a criança. Ela me contou muitas historias sobre você. - Sua puta maluca. - Ela não tem culpa. Ela estava só, e precisava de qualquer ajuda possível. Principalmente para criança. Sim, ela tinha um filho pequeno. - Por que você fez isso? - disse o homem de dentes amarelos. - Informação. - respondeu a mulher armada. De ambos os lados do corredor apareceram policiais. - Informação? - assassino pareceu não entender. - Parada! - um dos policiais gritou - Larga a arma! Larga! A mãe não se mexeu. - Precisava de informação para tirar algo seu. Algo parecia escorrer da bolsa no chão. - Quê? - Como eu iria saber que você tinha um filho? - Não.. eu.. - Ela me confidenciou um tempo depois que aquele filho nunca fora dela. - Você não.. - Ela perdeu o filho durante a gravidez, graças às drogas que era viciada. - Larga! A bolsa estava agora envolta numa pequena poça vermelha. - Então você estava com uma criança pequena que não podia criar, já que sua mulher havia te deixado. E alguém em sua profissão não podia estar preso a um peso grande como um bebê. O assassino chegou mais perto e olhou trêmulo para bolsa, pela abertura algo também olhou de volta. Um pequeno olho azul pálido no meio das sombras. - Era seu filho. Ou pelo menos uma parte dele. O homem tremeu sem acreditar naquela visão. Lentamente se abaixou e abriu completamente a bolsa da mãe. - Sabe o quanto é fácil degolar alguém? E a pele de criança é tão macia.. Ele tremeu. - Não.. De joelhos, assassino viu a cabeça de seu primogênito dentro de um saco plástico ensanguentado, olhou pra cima e viu os olhos do monstro, o riso de vitoria e a calma absoluta no rosto do demônio que estava a sua frente. O olhar perdido daquele o homem lhe deu a ultima recompensa naquele mundo. Ela fechou os olhos viu o filho e o marido lhe chamando para ir para casa. - Estou indo... Sorriu uma ultima vez. Colocou a arma no queixo e disparou.





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