• Elisa Ribeiro

Os Coreanos


Laerte entrou em casa por volta das onze da noite, cansado, faminto e louco por um banho. Antes de abrir o chuveiro, vasculhou a geladeira praticamente deserta, pegou três fatias de salame ressecadas e ligou a TV - aos berros - para ouvir as notícias de dentro do banheiro, sentado no vaso sanitário.

– Oi garotada!

Saudou as Psychodas que moravam e proliferavam no seu banheiro.

– Como foi o dia de vocês? O meu foi uma merda...

Era taxista. Separado há pouco tempo, ainda não se habituara à solidão. Sentia falta dos cachorros, da vozinha chata dos meninos e até da ladainha áspera da traíra da ex-mulher.

Passava o dia inteiro praticamente calado. Não gostava de falar enquanto dirigia. Quando o passageiro puxava conversa, respondia com monossílabos para desencorajar. Quase sempre funcionava. Também evitava conversar com outros taxistas. Cambada de ignorantes, mentirosos e maus-caracteres, era o que ele achava. Quando voltava para casa, sozinho e esgotado, sentia vontade de falar, comentar sobre o dia. Mais do que ter sempre comida na geladeira e eventualmente sexo, o que mais sentia falta da vida de casado era ter alguém com quem falar depois de um dia de trabalho.

Na falta, o ser humano se adapta. Foi essa adaptação que fez Laerte se afeiçoar às mariposinhas de banheiro, únicos seres vivos que junto com ele habitavam aquele apartamento cubículo, quarto e sala, escassamente mobiliado.

Mantinha conversas regulares com elas, as Psychodas. Além de comentar sobre o dia, debatia as notícias, fazia perguntas retóricas, do tipo, “Que filmes vamos ver hoje?” ou “O que temos para jantar?”. Não fazia qualquer esforço para eliminá-las e sempre entrava apreensivo em casa no dia que a diarista quinzenal o visitava pois temia que a limpeza do ambiente as afugentasse.

Só se deu conta de que a proliferação dos insetos podia se tornar um problema na noite em que, assistindo TV, já de banho tomado, passou a utilizar sua raquete de eletrocutar pernilongos para afastar as mariposinhas que voejavam ao seu redor. Mesmo sentindo-se um ingrato por tratar com tal desprezo os únicos seres que lhe haviam feito companhia nos primeiro tempos, difíceis, de separação, prometeu para si mesmo que tomaria providências caso as coisas piorassem.

Quando alguns dias depois, ao abrir a carteira para dar ao passageiro o troco depois da primeira corrida da jornada, um enxame de Psychodas escapou em revoada em torno, primeiro da sua mão, depois da sua cara, deu-se conta de que já havia passado a hora das começar a tomar as tais providências. Houvesse a revoada nojenta dos insetos acontecido antes da corrida, o passageiro certamente teria recusado viajar no carro de um sujeito com tal indício de ser pouco asseado.

Primeiro exigiu da diarista atenção redobrada à limpeza do banheiro. Explicou que as mosquinhas eram uma espécie de praga. Acessou a internet para mostrar-lhe que o problema estava nos ralos e exigiu que ela fizesse neles uma limpeza criteriosa, não economizando desinfetante ou água sanitária.

Nos dias seguintes às faxinas ele até notava certa diminuição na quantidade dos insetos, mas dois ou três dias depois a infestação ou voltava ao que era antes ou aumentava. Mesmo com o orçamento estourado decidiu tornar semanal a frequência da funcionária. Comprou uma dúzia de galões de creoliona, o desinfetante que sua avó usava no passado para a limpeza do quintal de casa, e instruiu que a faxineira usasse um litro a cada semana, metade na limpeza do banheiro – piso e paredes – a outra metade no ralo.

– Josélia, eles são como um exército de coreanos, você mata um, surgem trezentos.

Assim externou sua preocupação com a praga e, por gostar da metáfora, desse dia em diante passou a se referir aos insetos apenas como “coreanos”.

– São mutantes que criam sabedoria para autodefesa - continuou - Antes, eu matava com o dedo. Agora eles se antecipam, sentem a aproximação e fogem.

A faxineira fingiu que entendeu. Consigo mesma pensou que o patrão estava meio bolado.

Como a frequência semanal da limpeza também não surtiu o efeito desejado, começou ele próprio a limpar o banheiro, a princípio em dias alternados, depois diariamente e, por fim, de manhã e a noite quando voltava do trabalho.

Pela manhã, enfiava as mãos pelos ralos e canos para remover a gosma gelatinosa, coquetel de bactérias, que servia de alimentação às larvas famintas que eclodiam aos milhares dos ovos que os malditos coreanos depositavam em qualquer superfície úmida que encontravam.

A noite, depois de um dia de trabalho pesado, em meio a taxistas obtusos e passageiros mal-educados, desinfetava todo o banheiro e passava um pano na casa. De tão cansado, às vezes nem jantava.

A área de serviço vivia entupida de produtos de limpeza. A ex-mulher quando soube pelos filhos que, na dispensa, a comida ocupava um mísero espaço espremido entre litros e mais litros de desinfetante, inseticida e água sanitária, armou um barraco e proibiu Laerte de levar os filhos para casa.

Maldita hora que resolveu comentar com outros taxistas do ponto que frequentava sobre os insetos. Um deles, Altamiro, um velho gordo asqueroso, uma nesga de barriga exposta entre a bainha da camisa apertada e o cós da calça imunda e surrada, disse que conhecia uma empresa especialista no tratamento de pragas urbanas. Comentou que a tal empresa tinha acabado com uma praga semelhante na casa de um conhecido, vizinho no subúrbio onde morava. Laerte deu fé à conversa fiada, anotou o telefone e entrou em contato.

Como mesmo depois de regatear muito o preço, o serviço ainda continuasse caro, resolveu levar o assunto ao condomínio, argumentar que o problema atingia a tubulação dos ralos, comum a todos, e pedir que o condomínio pagasse. Mas a infestação pelos coreanos era um problema específico do seu apartamento e da sua tentativa de fazer o condomínio arcar com a despesa restou apenas mais humilhação ao tornar pública a situação nojenta que experimentava em sua intimidade.

Fez nova tentativa com o proprietário do imóvel Com sua cara de louco e seu discurso exageradamente enfático sobre a necessidade de eliminar os coreanos, assustou o homem, que temeu pela integridade física de seu patrimônio em posse de um sujeito tão abilolado. Não tomou, entretanto, o senhorio qualquer providência concreta relacionada aos coreanos e Laerte, fodido e, literalmente, mal pago, decidiu bancar a realização do serviço indicado por Altamiro, seu colega de praça.

Os dois profissionais da firma se apresentaram no dia e hora previamente agendados. Uniformizados, cada um portando uma bolsa grande, examinaram o banheiro. O mais novo dos dois, uma rapazote, até bem aparentado, achou muito estranho tudo aquilo porque só viu meia dúzia de mariposinhas no banheiro, muito menos do que havia costumeiramente na sua própria casa. Disseram a Laerte que precisariam que ele se ausentasse, pois usariam produtos que poderiam intoxicá-lo e o despacharam, pedindo que voltasse, calcularam depois de dar uma examinada geral na casa, dentro de duas horas.

Duas horas foram mais que suficientes para limparem os poucos bens de valor que Laerte juntara. Duas TVs pequenas, um notebook de segunda mão doado, um equipamento de som, de marca boa até, porém ultrapassado. Um telefone sem fio, duas calças jeans, o terno do casamento, duas gravatas, três camisas melhorzinhas, uma camiseta do Flamengo e um sapato.

Laerte ficou passado. Logo ele, confiar em taxista! O tal Altamiro sumiu do ponto. Ainda tentou encontrá-lo rodando pelas ruas da cidade com uma faca no porta luvas e uma bastão de basebol na mala, mas felizmente o sumiço do homem foi eficiente. O tempo acabou passando e fazendo com que Laerte se conformasse.

Desistir de perseguir o canalha do taxista foi possível, já aceitar ser derrotado pelos frágeis coreanos depois de tantas batalhas, persistiu para ele sendo algo inaceitável. Foi quando concebeu um plano infalível do qual não escapariam nem moscas, nem ovos ou larvas.

Umedeceu alguns panos de chão com álcool, três litros comprados na farmácia, e enfiou-os, assim encharcados em álcool, nos dois ralos que havia no banheiro. Em seguida, espalhou o que havia restado do álcool nos azulejos, no piso, na pia, nas parede do vaso. Na sequência, tocou fogo nos panos enfiados nos ralos.

Nem precisou atear fogo ao álcool que molhava os azulejos como havia planejado. Em segundos as labaredas lamberam o piso e as paredes do banheiro. Depois, desceram pela tubulação dos ralos para os andares de baixo. Por último, invadiram a sala e os quartos do minúsculo apartamento não sem antes pegar carona nas roupas de Laerte que as arrastou pelo corredor e pelas escadas que desciam até a portaria, passando pelo andar de baixo.

O incêndio foi assunto do noticiário. A história do maluco obcecado pelas mosquinhas de banheiro rendeu debate psicanalítico, viralizou na internet e se tornou tema de piadas.

Depois da recuperação sofrida das queimaduras — teve mais de oitenta por cento do corpo queimado — Laerte foi internado em um hospital psiquiátrico. É um maluco calminho que dá pouco trabalho aos enfermeiros, mas mata de cansaço os faxineiros, que precisam deixar mais de uma vez por dia seu banheiro absolutamente impecável.

– Eles são como um exército de coreanos. Antes eu matava com os dedos, agora eles invadiram minha mente – repete para si mesmo depois que os funcionários da limpeza vão embora.

Depois inspira profundamente, aperta os olhos e balança o tronco para frente e para trás por um tempo até se acalmar.

– Só tem um jeito de acabar com eles...

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