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Os pés de João Preto


Ele não sabia ler e escrever, jamais entendeu aquelas coisas rabiscadas nos livros e cadernos, mas também jamais havia passado perto de uma escola. Diziam que era filho de uma escrava que havia fugido de uma fazenda. Nunca teve um nome completo, desses com sobrenome e tudo. Criou-se por ali, fazendo pequenos serviços, caçando passarinho pelo mato, ajudando na roça de um e de outro, fumando seu cigarro de palha.


Quando conheci João Preto ele já era muito velho, ninguém sabia quantos anos ele tinha, nem ele mesmo sabia dizer qual era a sua idade. Eu achava uma coisa fascinante quando diziam que ele era a pessoa mais velha de Jacareteua. Para mim aquele velho alto e magro era a pessoa mais antiga do mundo.


Minha mãe dizia que ninguém nunca tinha visto João Preto adoecer. Ele morava sozinho em uma casinha de barro com um monte de galinhas, patos e vários cachorros. Lembro que eu gostava muito dos nomes que ele havia dado para os seus cachorros: Vai e volta, Assim, Alguém e Tuqué. Aonde João Preto fosse sempre tinha algum deles com ele.


Lembro que eu e meus primos às vezes íamos pegar goiabas no terreno dele. Quando ele nos via subindo nas goiabeiras ficava gritando “desce daí moleque do diabo”. Nós saíamos correndo alegres para logo adiante nos gabarmos de nossa esperteza. Acho que foram as melhores goiabas que comi na vida.


Certa vez fui com minha mãe no casebre dele pegar umas ervas para passar nas costas de meu pai que estava meio entrevado. Enquanto mamãe conversava com ele eu ficava olhando para o rosto encarquilhado dele. Eu nunca tinha visto alguém tão velho e nem tão alto na minha vida. Minha mãe dizia que ele tinha erva para tudo quanto era doença.


Acho que a lembrança mais forte que tenho daquele velho era o tamanho dos seus pés. Eram imensos, os maiores que já tinha visto. Todo mundo em Jacareteua sabia quando ele estava se aproximando pelo barulho que os pés descalços faziam. “Escuta só, lá vem o João Preto” ou então “João Preto tá passando no caminho, fulano corre e fala pra ele vir tomar um café”.


Tum ...Tum ...Tum ... Os pés negros, imensos, descalços e rachados de João Preto faziam um som alto e abafado quando pisavam forte no chão. Devo dizer que gostava muito de escutar aqueles pés. Será que quando eu crescer os meus também vão fazer barulho? Eu me perguntava isso toda vez que escutava aqueles pés imensos andando.


Cresci e meus pés nunca fizeram barulho. Aqueles pés marcaram a minha infância. Para mim João Preto era uma espécie de herói misterioso, mais velho que o mundo e com pés gigantescos que anunciavam a sua chegada.


Certo dia chegou a noticia de que astronautas viajaram até a Lua e tinham andado por lá. Eu não entendia muito daquela coisa de viajar em um foguete e tinha gente que sequer acreditava que aquilo tinha acontecido. O que eu lembro bem daquele momento é que toda vez que olhava para os pés de João Preto eu ficava achando que eles é que deveriam pisar na Lua. Eu ficava imaginando aqueles pés imensos andando na Lua e a televisão mostrando eles para todo o mundo. O engraçado é que naquela época eu nunca tinha visto uma televisão de perto.


Três dias depois da conquista da Lua João Preto faleceu. Morreu tranquilamente enquanto dormia em sua velha rede. Todos diziam que ele morreu sem sentir nada, nenhuma dor sequer, já que nunca ficava doente.


Jacareteua inteira foi no seu enterro, inclusive os cachorros dele.


O tempo passou e minha família terminou indo morar na cidade grande. Estudei e virei advogado para orgulho de meus pais. Nunca mais voltei em Jacareteua.

Passado todos esses anos, quando olho para trás e lembro-me daquele menino magrinho correndo pra cima e pra baixo, chego à conclusão que eu continuo achando que os pés de João Preto é que deveriam ter pisado na Lua.

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