Palavras de um Amigo

“Não sei nem por onde começar... acho que é assim que é quando realmente se toma uma decisão. Fica-se sem saber o que fazer, depois de feito. Por isso que aqui estou, quando poderia estar em qualquer outro lugar. Mas estou aqui. Só pra te fazer ouvir... se quiser...

Pois bem. Já que preciso dizer, então que eu diga.

Assim começo:

‘Eu sei que você vem mentindo! Mas o que você ganha?’

Sua expressão me diz que você não imaginou que eu soubesse, não é? Mas eu sei. Sempre soube. Acho que você também.

Mas admiro a maneira como você consegue se mostrar tão seguro e convicto das atitudes que têm te levado pra bem longe de quem você já foi, também conheci quem você foi, antes de você estar assim. Eu te conheço bem? Digamos que sim... embora você ainda duvide. Se eu dissesse que sei de tudo a seu respeito... não sei o que pensaria... Por que me olha assim? Eu também conheço esse olhar. Sempre que esse olhar entra em cena possivelmente verei confirmado o que penso sobre você.

Continuemos.

Mentir não tem sido tua maior falha, não, até porque mentir é tão inerente ao Homem quanto sua pele, sei, sei... talvez alguém diga que nem todos são mentirosos, mas eu digo para aquele que a si disser que é sempre transparente e verdadeiro; diga que é tudo isso; assim que terminar, serás o mais novo mentiroso!

Voltando... criar uma ilusão ou mentira, como preferir, já que você sempre soube como fazer das coisas mais agradáveis às suas maneiras, pode ser tua força mais secreta, aquela que nem o algoz mais habilidoso consegue arrancar, ela é quem tem te mantido num caminho que você também julga correto, porque você se habituou a ver somente aquilo que teus olhos almejam, você pula buracos, desvia de serpentes, mas não consegue admitir onde pisa quando se vê seguro, acredita que o caminho foi o melhor, ele foi pra você, só pra você, não seria pra ninguém mais, então quando por acaso o ‘engano’, aquele que também se disfarça de buraco e serpente pra não ser visto, cobra sua parte no acordo das ‘máscaras’, já é tarde. E aí amigo... mentir é uma benção. É assim que você acalenta qualquer tipo de esperança de que tudo ainda mudará... Mas será que você ainda não percebeu? É realmente tão difícil assim reconhecer?

Acho que tenho sido duro com você... esqueci que você também concorda em parte com minhas opiniões... ainda que nunca confesse. Mas o que estou fazendo agora enquanto te exponho algumas coisas que você talvez veja como minha intenção em te ajudar, é te dizer só pra saber que eu disse... pra que eu não sinta culpa caso você continue e depois... depois... você me entende, depois, nunca se sabe.

Porém não te digo tudo isso pra que você reviva o que não quer ou até mesmo me olhe como à um estranho, desejando que eu me meta com a minha vida... mas você sabe... minha vida, sua vida... nossa vida... me sinto na obrigação de agora ser inflexível, esse é meu jeito de te mostrar que ainda me importo com você... tanto... tanto que tudo que te digo, digo como se estivesse dizendo pra mim mesmo... outros não fariam o que agora faço por ti. Só eu. Somente eu me disponho a te observar todos os dias, me contendo, te deixando à vontade, desde sempre sei que você tem suas particularidades, coisas por tantos admiradas, afinal, eles não te vêm como eu... eu tenho esse privilégio por te ser muito dedicado, lembro de você a todo tempo, te deixo escolher conforme tua ignorância, sei que só assim você me verá, e me dirá que lá no fundo você sempre cogitou a possibilidade de que eu estivesse um pouco certo... mas você sempre tem a palavra final, por isso te dizer esse monte de coisa de repente sem sentido talvez seja perda de nosso tempo, no final você me cala, e o que me resta é calado falar com palavras silenciosas, palavras essas que alguns chamam de sentimentos... desses você não me proíbe, eles nos servem assim como os segredos servem aos curiosos. Às vezes só assim você me escuta... e não é de agora que me ignora...

No entanto... sabe aquela escolha que te fez estar onde está agora mesmo? Você se lembra? Daquela que te deixou dias conversando apenas comigo, me questionando se de alguma forma eu via alguma solução, e eu, evidente, sabia que se te dissesse você ficaria contra mim, às vezes além de não querer me ouvir você ainda me culpa... acredita? Lembra? Quando você me culpa, perceba que dividimos o peso. Eu não posso te deixar só quando você precisa, essa é minha sina, é o que sou... o que somos... porque também com teu sorriso minha expressão também muda... assim como com a tua lágrima... saiba que também sofro.

Mas... acho que é só isso. Se você suportar... eu também suportarei. Por enquanto. A escolha é sempre sua...

Continuaremos nos vendo, você continuará se vendo, mas quando você pensar que eu não te vejo, ainda assim saberei de tudo... verei com teus olhos... você não conseguirá mentir pra mim... e talvez não deva fazer isso a si...

Mas sempre que falo muito... você nunca me ouve...

EI!!! ESPERE!!! ”

Um lençol é atirado sobre o espelho.

A porta do sótão se fecha com força.

O solitário sai chorando...



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