• Elisa Ribeiro

Pedalando


De: Alice Hunt (alliehunt@gmail.com)

Enviado: sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

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Querida filha,


Como você não atende minhas ligações nem responde minhas mensagens, resolvi tentar por e-mail. É até bom, atualmente escrevo em português bem melhor do que falo.


Sei que a sua mágoa é grande. Eu entendo e respeito isso, mas peço, mais uma vez, uma chance.


Eu estaria sendo hipócrita se dissesse me arrepender das decisões que tomei no passado. Fiz o que podia fazer com os recursos que dispunha e a maturidade que eu tinha na época. Mas eu não gosto de falar do passado. O que me interessa agora é ter um futuro com você.


Estarei no Brasil no mês que vem participando de uma conferência em São Paulo. Planejei ficar no Brasil durante dez dias: o final da semana que antecede e o seguinte ao evento. Quero muito encontrá-la. Pode ser em qualquer lugar: na sua casa, em um restaurante, em outra cidade, no meu hotel, à sua escolha.


Onde você estiver, ou quiser, irei vê-la

Com carinho,

Alice Hunt.



De: Elena Braga (elena.braga82@gmail.com)

Enviado: segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

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Pensei muito antes de responder. Não queria recomeçar esse nosso diálogo desafinado. Mas cheguei à conclusão que deixá-la sem resposta é uma covardia da minha parte. E uma infantilidade também.


Não sei por que você insiste. Nós já tentamos mais de uma vez e não funcionou. Eu tenho muito ressentimento e não consigo superar.


Quando li no seu e-mail que você não se arrepende, minha garganta travou, o ar faltou. Não consegui controlar as lágrimas, a raiva. Não gosto de sentir isso, me sinto pequena, mas não consigo evitar.


Você me abandonou, me rejeitou, nada pode mudar isso. Por mais que eu entenda, racionalize, dói demais.. E quando você diz não se arrepender, para mim, que tenho uma filha, aí então é que eu não consigo entender mesmo. Como alguém abandona uma filha, vai viver sua vida e não se arrepende? Como uma mãe pode se sentir assim? Como pode ser tão fria?


Eu não quero ver você. Não quero mais sentir essa raiva. Não quero que você me veja sentindo essa raiva. Não quero passar pela sensação de estranhamento que aconteceu entre nós das vezes anteriores em que nos encontramos. Os silêncios, a falta de assunto, a mágoa, a vontade de ir embora. Não dá, Maria Alice.


Nessa vida, perdemos a chance.


Elena

De: Alice Hunt (alliehunt@gmail.com)

Enviado: segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

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Querida filha,


Que bom que respondeu. Embora a resposta não tenha sido muito boa, pelo menos dessa vez você não me devolveu apenas o silêncio.


Fiquei tão feliz ao ver sua mensagem na minha caixa de entrada que hoje, do trabalho mesmo, mandei presentes para você e a Júlia: capacetes para andar de bicicleta. Vi a foto que a Júlia postou no Instagram: vocês duas, na praia pedalando. Comprei na internet, mandei entregar, a Julia me deu o endereço pelo messenger. Espero não ter errado no tamanho.


Sei que vocês não precisam de nada, graças a Deus. Eu é que preciso me fazer presente. Imaginar vocês usando os capacetes num momento como o que eu vi na foto, vocês tão felizes e relaxadas, me pareceu uma forma de estar juntos, pedalando com vocês.


Como já disse, não há nada que eu possa fazer sobre o passado, por isso dele não me arrependo. Não me julgue por isso. Somos diferentes. Quanto ao futuro, farei tudo que estiver ao meu alcance para me reaproximar de você e da minha neta.


Já comprei as passagens para o Brasil. Ficarei em São Paulo apenas durante o evento, o restante dos dias, passarei no Rio. Ainda não decidi o hotel, mas pretendo ficar em Ipanema, mais perto de vocês aí em Copacabana. Posso visitá-la ou recebê-la no hotel ou em algum restaurante para um lanche, um almoço ou jantar.


Em último caso, sento-me em um banco, na porta do seu prédio, para pelo menos vê-la e à minha neta.


Beijos carinhosos,


Alice Hunt


De: Elena Braga (elena.braga82@gmail.com)

Enviado: terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

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Se ao menos você tivesse aparecido antes, quando eu precisei de um braço, de um ombro, de uma mãe. Quando meu pai morreu, por exemplo, e eu fiquei completamente órfã no mundo. Ou quando a Júlia nasceu. Ou depois que o pai dela me deixou e eu tive que me virar sozinha.


A Julia não devia ter lhe dado nosso endereço. Vou repreendê-la. Não a proíbo de falar com você, mas não quero receber você ou os seus presentes na minha casa. Minha casa é meu abrigo, o lugar onde eu me sinto protegida de tudo que me agride ou me faz mal, é o último lugar onde quero a sua presença.


Avise quando vai estar no Rio. Se você pretende mesmo fazer o que ameaçou, ficar a aqui na nossa porta nos vigiando, vou sumir com a Júlia para algum lugar distante.

Elena


De: Alice Hunt (alliehunt@gmail.com)

Enviado: quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

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Elena, minha filha, eu já lhe expliquei antes que eu pensei em procurá-la em inúmeras ocasiões, mas o medo sempre me paralisava. Vergonha, receio da sua reação, culpa. E eu também tinha a minha vida, tanta coisa acontecendo sempre.


Quando meu primeiro filho nasceu e eu senti a felicidade de cuidar de um bebê meu, segurá-lo no colo, amamentá-lo, só Deus sabe como eu lamentei não ter cuidado de você.


Amamentei você uma única vez na maternidade. Assim que saímos, seu pai a levou para Minas, para a casa da mãe dele, sua avó, conforme havíamos combinado antes. Vinte dias depois, viajei para a Alemanha, meu mestrado. Você já deve estar cansada de ouvir essa história.


Você foi o bebê mais lindo que eu já vi. Cabeludinha, nasceu desinchada, toda prontinha, nem parecia o fruto de uma gravidez tão complicada.


Foi tudo muito difícil para mim, Elena. Meu pai, seu avô, queria que eu interrompesse a gravidez. Dizia que eu havia engravidado na hora errada, que eu estava estragando a minha vida. Eu e seu pai bem que tentamos, mas não tivemos coragem. Protagonizamos uma cena patética. Já na clínica, na sala de espera, de mãos dadas, caímos os dois em prantos. A atendente devolveu nosso dinheiro aconselhando que voltássemos para casa e pensássemos mais um pouco.


Quando eu estava no quarto mês de gravidez, papai avisou que estava de mudança para os Estados Unidos com a namorada e o filho dela. Uma crise de meia idade, é como eu qualifico hoje a atitude dele. Menos de dois meses depois, partiu deixando seis meses de aluguel pago, a geladeira cheia e o endereço da casa onde moraria nos primeiro tempos. Fiquei sozinha, pagando minhas contas com o dinheiro que ganhava como monitora na faculdade e dando aulas particulares. Minha mãe, você sabe, morreu quando eu tinha a idade da Julia, dezesseis anos.


Seu pai gostava de mim, mas não o suficiente para casar, viver junto. Só ia ficar comigo por causa de você e por pena de mim, da situação em que eu fiquei. Aí surgiu a oportunidade na Alemanha e eu me agarrei a ela. Não podia aceitar que alguém ficasse comigo por compaixão, por piedade ou por culpa.


Não queria deixar você, mas ainda hoje quando reflito, considero que foi a melhor opção, por isso insisto em dizer que não me arrependo. Sempre pensei em você e gostaria de não ter tido tantos escrúpulos, tê-la procurado antes, logo que minha vida se ajeitou. Espero realmente que você permita a reaproximação que eu venho tentando. Você é minha única filha mulher, a Júlia, minha única neta. Eu tenho tanto para contar, para dividir com vocês.


Sobre o dia que vou estar no Rio, depois do que você falou sobre viajar, estou inclinada a não lhe dizer.


Amo você, filha, acredite.


Beijo carinhoso.


Alice Hunt


De: Elena Braga (elena.braga82@gmail.com)

Enviado: quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

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Você realmente não tem a menor sensibilidade. É quase um monstro cartesiano sem coração. Como você acha que eu me sinto sabendo que você e meu pai quiseram me abortar?


Meu pai nunca falou isso. É o tipo de coisa que ele nunca falaria. Ele sempre dizia que eu tinha vindo em uma hora ruim, que o mestrado na Alemanha era irrecusável e que ele propôs que eu fosse criada pela minha avó.


Eu não quero ver você, não quero mais trocar mensagens. Reviver essa história toda me aborrece e me entristece. Por isso eu peço que você me deixe, nos deixe, eu e a Júlia, em paz. Que não nos procure quando estiver no Brasil e que não me escreva mais.


Elena.


De: Alice Hunt (alliehunt@gmail.com)

Enviado: quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

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Querida filha,

Esse seu ressentimento me mortifica. Mas serei paciente. Tenho confiança de que um dia nos entenderemos.


Fique tranquila, não irei procurá-la durante minha estada no Brasil.


Com carinho,


Alice Hunt


De: Julia Braga (oijulinha@gmail.com)

Enviado: quarta-feira, 15 de fevereiro de 2018

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Oi avó Maria Alice,


Tudo bem?


Eu acompanhei a troca de e-mails entre você e minha mãe. Uso o computador da mamãe às vezes e a caixa de entrada do e-mail dela entra direto quando acesso o Gmail.


Minha mãe é muito cabeçuda. É muito sentimental, dramática e rancorosa também. Ela não vai ceder. Vai continuar se fazendo de vítima a insistindo em manter distância de você.


Só que eu não concordo com isso. Você é minha avó, uma mulher bem sucedida, uma pesquisadora que faz conferências mundo afora, eu tenho orgulho de você. Na real, acho que a minha mãe também tem, mas ela nunca vai admitir isso.


Eu quero conviver mais com você, conhecer você melhor. Como você falou num e-mail anterior, quero ouvir as coisas que você tem para contar, para dividir comigo. Não acho justo minha mãe me privar, nos privar, disso. O que passou ficou, não é mesmo?


Eu não vejo nada demais em você ter deixado minha mãe e partido em busca da sua realização profissional. Acho que talvez eu fizesse o mesmo. Esse negócio de abandonar filho pequeno é super comum nos Estados Unidos, por exemplo. Lá, as mães que engravidam fora de hora dão os filhos em adoção. Não sei por que minha mãe transformou isso num dramalhão mexicano.


Quero que você me diga que dia vai estar aqui no Rio. Vou dar um jeito de você e a mamãe se encontrarem. E vai ser um encontro bom, vocês vão se entender, tenho certeza. Chega de briga, ressentimento. Brigar não leva a nada. É uma perda de tempo.


O meu plano é nos encontrarmos “casualmente” durante um dos nossos passeios de bicicleta. Eu e a mamãe pedalamos sempre, todos os finais de semana. Até quando chove, às vezes. Minha mãe fica muito suave quando pedala. Talvez o vento batendo no rosto ou o sangue circulando mais rápido nas veias. O fato é que ela é uma pessoa melhor sobre duas rodas e não vai me impedir de parar e falar com você. A gente combina o encontro bem perto de um quiosque, na Lagoa, por exemplo. Ela não vai ter como se recusar a sentar e conversar um pouco com você.


Por falar em bikes, os capacetes já chegaram. O meu foi só ajustar atrás e ficou perfeito. Adorei a cor. Vou postar uma foto e marco você. O da minha mãe também ficou bom. Nós duas usamos no pedal que fizemos pela praia anteontem.


Vou aguardar você me dizer os dias em que vai estar por aqui, então.


Fica tranquila. Eu dou um jeito na sua filha. Vai ficar tudo bem.


Beijos, avó Alice.


Amo você


Julia.

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