Poesia Noturna




Onze horas da noite, cidade de Travessia.

Um lugar silencioso, em algum ponto da RN 406...







I

Minha Escuridão


Daqui a pouco os vampiros saem por aí

E suas capas lunares ficam presas na janela,

Deixando o quarto mais escuro

E tornando em tristeza o simples ato de respirar.

Os morcegos se amontoam sobre o telhado,

Aqui e nos vizinhos,

Fazendo aquele estardalhaço.


Enfim, um completo silêncio tomou conta do lugar.

Eu no meu quarto, os morcegos nas calhas,

Os vampiros na cidade,

E o silêncio na rua.

Partindo do quadro observado,

Concluo que, nesse momento,

A terra parou de girar.



II

Untitled #3


À noite, costumo sentar no banco da praça,

O mesmo de sempre.

Sentir o vento gelado,

Lento na sua vaga necessidade de soprar.


Nesses instantes, percebo o silêncio que faz o meu cabelo crescer.

Nele eu confio os meus segredos mais sombrios,

Que cobririam de sombras os primeiros raios de sol

Se, de outra forma,

Eu deixasse me levar pelas inverdades mal contadas

Pelo mau costume da manhã.



III

Póstumo


Memórias

— Vindas de um lugar estranho para mim —

Tomaram forma e se espalharam pelo quarto,

Em baixo da cama... sobre os jogos de tabuleiro...

Nos vãos vazios esquecidos pela casa...


Em seguida ouvi um estrondo muito forte lá fora,

Uma explosão, um raio, um trovão... — Não sei!

Parecia que a terra estava sendo partida no meio,

Por Deus ou algo pior.

— Que diabos seria isso? — Levantei assustado da cama.

Pelas persianas, vi um céu avermelhado

E os últimos raios lunares se despediam da noite.

Voltando os olhos para o quarto:

As paredes começaram a se deteriorar,

Pedaços de reboco caíam e espalhavam poeira pelo chão...


Como numa roda viva,

Sentado no centro empoeirado,

Tudo passou a girar em minha volta,

As memórias e as paredes,

Como se eu fosse um sol que, em certo momento de sua vida,

Não percebesse que, já há muito tempo, havia parado de brilhar.



IV

Olhos Errantes


Noite de sábado, tive que acompanhar minha mãe e suas irmãs,

Que não se viam há um bom tempo,

Fomos num dos melhores lugares da cidade:

Uma varanda voltada para um bairro muito arborizado,

Belas casas, ruas vazias, quartos de luzes acesas,

Muros, cercas elétricas, portões automáticos, carros estacionados,

Silencioso e requintado...


Agradeci pela comida, pelas conversas e pela bebida.

Mas elas não perceberam os prédios no horizonte urbano,

Nem as nuvens invencíveis que se moviam para longe.

Não perceberam a tempestade que se formava bem ao lado,

Nuvens carregadas de neblina se reviravam nos meus olhos,

Olhos inertes de quem temia a hora de voltar para casa.



V

Wetten*


As pessoas costumam exigir de mim

Certo nível de perfeição que não me cabe.

E, num universo onde as chances são de 20 contra 1,

Meus gametas formam a unidade.



VI

Doppelgänger**


Percebo que algo sempre se esconde atrás de objetos luminosos.

Uns falam de penumbra,

Outros, de misantropia...


No meu caso, eu não sei bem o que me guarda

Quando me escondo atrás das luzes da cidade:

Postes, lâmpadas de mercúrio, esquinas, entre outros lugares,

A velha ferrovia, a antiga estação desativada...

Espero,

Espero que tudo passe,

Que passe por aqui,

Ou que não passe de uma ilusão.


Com estranheza, certas saudades me vêm agora,

As calçadas onde meus amigos e eu costumávamos sentar para beber,

Os lugares escuros para namorar,

As praças e o vazio das madrugadas,

O retinir das garrafas de vidro,

O olhar perdido da moça que toda noite acendia os seus cigarros com a delicadeza que só a escória tem...


Oito, nove, quase dez anos de distância,

No beco escuro em que estou agora,

Em frente à antiga casa — a casa em que nasci —

Ratos percorrem o telhado e o portão continua do mesmo jeito.

Um grupo de jovens passou por mim

E — Que inferno! — Parecia que eu nem existia!

Por um momento me vi entre eles,

Com a minha jaqueta preta e a calça jeans...

Um deles voltou em minha direção e eu pensei:

“Seja gentil e me ofereça pelo menos um cigarro, seu puto!”

Para a minha surpresa, ele entrou na antiga casa,

Acendeu as luzes do meu quarto e não saiu mais.

Os outros amigos já haviam sumido noite a dentro,

E os meus olhos encheram-se de lágrimas.





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* Apostas, em Alemão numa tradução livre.

** Segundo as lendas germânicas, monstro ou ser fantástico que tem o dom de representar uma cópia idêntica de uma pessoa.





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