R. M. RENFIELD

Meu nome é Romuald Miriad Renfield. E se esta menção lhes trazer lembranças de um tal R. M. Renfied, de um famoso romance do final do século XIX, intitulado Drácula, isso não será mera coincidência. Ainda que Stoker tenha cometido tamanha injustiça com o personagem baseado na minha pessoa, eu o perdoo por ter ao menos se lembrado de mim, ou de outra forma eu entraria no esquecimento. Galguei os séculos subsequentes até esse inapropriado e louco século XXI trazendo comigo a herança consanguínea das criaturas da noite. Creio que esses tempos atuais são vertiginosos e vazios. Nada é estranho, tudo é aceitável e a fé e a religiosidade estão à beira do colapso. Por essa razão quero dedicar algumas linhas a falar de um tempo mais remoto, pois estou entediado.

Saltarei logo para o momento em que adentrei pela primeira vez aquele castelo sombrio e murmurante. A figura decrépita do conde que a literatura apresentou, contudo, não está tão longe da verdade da forma como foi descrita. O seu porte e a sua estatura intimidavam e seus modos silenciosos e fortuitos faziam você pensar, às vezes, que ele estava num lugar, quando estava em outro. Ou era a sua sombra que vez ou outra parecia escapar do corpo. Suas educação e instrução eram de um homem culto, um exímio cavalheiro. Fisionomicamente tinha a frieza do mármore em suas expressões e a escultura de Davi de Michelangelo inspiraria maior calor humano.

Agora, porém, terei de desmentir parte das coisas que foram ditas por meu amigo Stoker. Como por exemplo o fato de não ter Drácula servos em seu castelo. Não só os tinha, como eram seis.

São eles:

- Duman (cocheiro)

- Sila (camareira)

- Acar (jardineiro)

- Mihai (mestre de obras)

- Vasile (cozinheiro)

- Agatha (governanta)

Na época eu era um profissional muito respeitado em minha área e angariava uma promoção assim que fechasse esse contrato imobiliário com o conde. Mas a minha doença, que aos poucos foi debilitando meu físico e minando meu espírito, adiou tais planos além de qualquer projeção pessimista que eu pudesse supor. Sem parentes, além de uma tia que sofria de tísica e que morava em Sussex, a qual eu não visitava desde criança, não havia pessoas que pudessem reclamar minha falta, com exceção da firma, à qual Drácula fez-me escrever cartas para justificar minha demora. Mas quando percebi seu ardil em me manter prisioneiro, já era tarde. Eu me apaixonara por Sila, a camareira e embora o irlandês afirme que Drácula foi quem sugou o meu sangue, nada pode ser mais equivocado. O único interesse do velho decrépito por mim estava em aprender os costumes da vida inglesa, que ele admirava e exaltava sempre. Dizia que a Grã-Bretanha era o novo império do mundo, assim como o império huno já fora um grande império. E falava em batalhas e lendas de um rei que empalava pessoas e bebia o seu sangue, como se ele próprio tivesse vivido aquelas coisas. Muito me embrulhou o estômago ouvir os relatos de carnificina em redor da lareira. Um dos mais curiosos e assustadores e que cabe nota, aconteceu em 25 de dezembro, por tanto Natal, mas uma data que para eles não significava nada. E pelo o que eu ouvia quanto às suas crenças e lendas, até causaria grave ofensa se mencionasse o nascimento de Cristo alguma vez.

O conde contou-me que em certa noite fria em que nevava muito, uma caravana passou pelos Cárpatos com pressa para fugir de uma tempestade. Mas um vulto negro e embaçado assustou o cavalo e o fez empinar. A carroça tombou e o cocheiro e os passageiros, que não se feriram, saíram todos confusos e assustados. Na frente do cavalo, que relinchava e batia com as patas no chão, uma criança nua e coberta de sangue. Entre suas pernas um lobo despedaçado e nas suas mãos as vísceras ainda quentes, que ela comia. Todos eles morreram naquela noite.

Sila também contava histórias, mas na maioria das vezes eu estava distraído demais para prestar atenção. Seus olhos grandes e negros conspiravam contra mim, junto àqueles lábios delicados e rubros. Seduzindo-me, arrastaram minha alma como uma folha para dentro de um furacão, capturando-me para sempre. A noite em que a conheci foi avassaladora e mortal. Eu acordei depois de ouvir um grito estridente e medonho de mulher. Foi um grito tão alto e retumbante que se eu me concentrar ainda o escuto em minha mente. Todavia foi a visão e não a audição o que me causou maior impacto. Sila estava deitada no teto com os joelhos e os cotovelos dobrados e rindo. Os seus olhos eram como duas bolas pretas em que não se destingiam íris, nem o branco do olho, só uma saltitante chama azulada e fantasmagórica. Seus caninos eram quatro proeminentes lâminas afiadas, que se curvavam de fora para dentro formando uma eficaz e sanguinolenta arma para se extrair o sangue. Antes que eu fizesse qualquer movimento, o monstro em que minha doce Sila estava transformada caiu sobre mim e cravando seus dentes chupou o sangue de meu peito. Mordia-me e depois lambia-me, o que causava calafrios e desejos fervorosos a este débil hospedeiro que eu estava me tornando. Eu a abraçava e ao mesmo tempo a apertava como se quisesse matá-la ao sentir simultaneamente a vida me abandonar. Passei a mordê-la também quando senti as células do meu sangue correrem vertiginosamente e meus batimentos acelerarem.

Banqueteamo-nos aquela noite de sangue e de sexo, como dois amantes demoníacos e loucos. E foi assim que eu me transformei em vampiro. Nesses tempos em que eu me inebriava de amores por Sila, Drácula começou a perder gradativamente seu interesse pela terra da rainha e as invenções do mundo moderno, como ele dizia, e ficava cada vez mais ausente do castelo.

Numa das suas excursões eu o segui. Roubei um dos seus cavalos e cuidava para não ser visto e também para não o perder de vista, tomando uma distância oportuna. Duman, o cocheiro, parou a carruagem na frente de uma mansão suntuosa e quando Drácula desceu, para meu espanto, estava jovem e alegre. Pele corada e olhos saudáveis e radiantes, como eu jamais vira. O nariz adunco encolhera um pouco, mas persistia como uma de suas mais marcantes características e aqueles olhos pequenos e perscrutadores como se além de enxergar também farejassem as almas dos homens, ficavam atentos a tudo. O conde entrou na mansão. O enorme portão de ferro maciço se abriu perante sua presença e Duman, aquele misterioso homem, ficou o tempo todo parado em seu lugar, rígido e inumano.

Como eu vim a descobrir depois, durante minhas excursões no castelo, Drácula, em suas viagens pelo mundo havia feito quatro vítimas voluntárias que como ele aceitaram de bom grado a danação eterna. Hoffman da Irlanda, Edgar da América do norte, Sedric da Alemanha e Gustav da Áustria. Pelo pouco que li a respeito, esses senhores eram dotados de poderes maiores que os vampiros comuns, mas ainda inferiores e sendo subjugados ao conde.

De tanto me esgueirar e me esconder, aqui, ali, atrás de árvores e estátuas, eu pude observar que a mansão parecia abandonada. O mato alto e o limo nas fontes do jardim, que além da sujeira estavam secas, assim como os animais peçonhentos que cruzavam meu caminho: aranhas, lacraias e escorpiões, davam conta de confirmar este fato.

Guardas com armaduras antigas como as usadas pelos guerreiros do século XVI, cada uma com seu emblema da casa que representavam estampado no peito, conduziam escravos amarrados em correntes, das carroças para um casebre separado da mansão. Eu senti pena desses escravos, assim que os vi. Sabia que coisas macabras seriam feitas com eles.

Percebi que a movimentação se situava nos fundos e fui para lá. Surpreendeu-me a estrutura que havia sido feita para aqueles jogos sangrentos. Imaginem um anfiteatro grego, um pouco maior, mas era com o que se podia comparar. Na arena escravos das cinco casas, incluindo a casa dos Dracul, se enfrentavam ferozmente com espadas, clavas, e qualquer arma que estivesse disponível. Eram mortes horríveis. Cada um lutava bravamente por sua vida e os golpes arrebatadores eram quase sempre mortais, com mutilações de braços, pernas, cabeças. Quando as armas eram arremessadas longe na luta, as próprias mãos serviam para pôr fim às vítimas. E tudo assistido de camarote por aqueles senhores, que riam, se divertiam, bebiam, enquanto esses homens se matavam.

Depois da carnificina os vencedores das batalhas comiam e bebiam na mesa com os seus senhores, em um espetáculo de algazarras, falta de educação, gritarias e gargalhadas. Pude notar, para meu espanto, que ao lado de Drácula estava uma menina ruivinha, de vestido branco, que contava com uns 13 anos. O conde se levantou, a pegou pela mão e falou alto para que todos ouvissem:

– Senhores. Prestais atenção um minuto. Muitos de vós conheceis a famosa técnica de guerra que desenvolvi, chamada de empalamento. Mas será que sabeis a maneira correta de se empalar alguém? Quem se habilita? – Drácula esperou resposta, mas só algumas piadas foram jogadas ao vento, como: “É só enfiar uma lança no cu do desgraçado e vê-lo se estrebuchar”.

– É verdade. Este aí não deixa de ter razão. Mas senhores, isso não é apenas um modo de tortura brutal. Tem certo método. Os meus prisioneiros de guerra eram bem tratados, eu cuidava deles. Os alimentava, os lavava. E os fazia evacuarem. Porque teriam de estar limpos quando fossem transpassados. Brida, que está comigo há dois anos, já me viu empalar alguns, não é Brida?

- Sim, mestre. Eu gosto de vê-los morrer devagar. É como música os berros deles.

– Estão vendo? Esse é o modo de vida romeno. Pelo menos dos poucos que sobraram da nossa estirpe. Temos um voluntário dentre os presentes? O que falaste? Não consigo te entender, – disse Drácula ao grudar no pescoço de um dos escravos que se divertia com uma das campesinas, que ele não sabia, era uma vampira. Com a mão na garganta do rapaz, Drácula troçava dele e o erguia alto, demonstrando uma força descomunal. Prensou-o contra a parede depois de soltá-lo em queda livre e começou a arrancar suas roupas, virou-o de costas e pegou a estaca que foi dada a ele, a introduzindo no ânus do coitado que gemeu de dor. Eu não me lembro de ter sentido uma agonia tão grande. Nem enquanto os guerreiros se matavam na arena. Os gritos do homem eram a expressão máxima de dor que alguém podia sentir, sendo rasgado por dentro, tendo tripas, pulmão e coração, perfurados e revirados. Até que a estaca saísse pela boca. O som de osso quebrando e o fim. Mas todos assistiam maravilhados e eu estava chorando sem me conter e assim fui descoberto.

– Renfield, meu convidado. Vieste para a festa? Junte-se a nós. Um brinde. Sirvam-lhe. – E prontamente mediante a ordem de Drácula uma das suas servas me deu uma taça cheia. Todos brindaram. Eu só conseguia articular movimentos mecânicos. Estava em choque.

– Sirvam-se senhores. Mistui, – conclamou o conde em sua língua natal.

Nesse momento os escravos vitoriosos que ainda estavam vivos e contentes foram mortos pelos seus respectivos senhores. Drácula desembainhou sua espada e cortou a cabeça do seu lacaio, bebendo o sangue pelo pescoço. Bebia com prazer, deliciando-se devagar. O sangue que jorrava banhava todo o lugar. Depois o conde arrancou o coração que ainda estava fresco e batendo e o comeu.

Um dos senhores devorava a barriga do seu servo e puxava suas tripas para fora. Outro resolveu cravar os dentes em todas as partes do corpo do seu e rasgando a carne, afiava os caninos. As campesinas e discípulas de Drácula traziam bebês consigo e se alimentavam deles, os segurando pelos pezinhos. Depois disso tudo se apaguou e eu estava de volta ao castelo.

Acordei com Acar, o jardineiro, jogando-me água na cara. Eu estava deitado no jardim e minha camisa estava toda empapada de sangue.

– Vamos, saia do meu jardim, vadio! – Gritou o homem. Enxotando-me com um rastelo. Acertou-me uma costela e doeu muito, eu gritei.

– Eu nem sei o que estou fazendo aqui. Calma. Achas que quis tirar um cochilo na sua horta?

– Não deves mesmo saber. Caso contrário não estarias deitado neste solo, a menos que quisesses servir de alimento para as minhas amigas.

– Como é? – Questionei. Dei uma olhada em volta e embora aquelas plantas despertassem minha curiosidade pelas suas singularidades e beleza incomuns eu não suspeitara de nada.

– São plantas carnívoras. Poucas espécies, dentre as inúmeras que existem. Tem a drosera, a cobra, dioneia, planta de jarro, utricularia e tantas outras, mas nomeá-las e enumerá-las para um leigo seria tolice.

– E elas comem gente?

– Cadáveres. Estão enterrados. Elas contribuem com a mãe natureza, sabia? São criaturas belas e mortais. Dotadas de uma inteligência que não existe igual na flora da terra.

– Parece que essa dieta é comum por aqui. Você também deve ser um vampiro.

– E não somos todos? Benvindo à Transilvânia, amigo! – Retorquiu Acar, com um sorriso diabólico no rosto.

Dormi o resto do dia. Estava exausto, com o corpo moído. Não me lembro de ter bebido sangue depois que desmaiei na mansão, porém tudo levava a crer que sim. Solidarizava-me no fundo pela pobre vítima, quem quer que fosse. Despertei com um barulho, o que era comum, quando não era amedrontado por algum pesadelo. Abri a janela e vi Agatha, a governanta, agachada apoiando-se no galho grosso de uma árvore, dilacerando a garganta de um morcego e o jogando fora. Ela olhou para mim assustada e depois lançou-se ao solo caindo sobre os quatro membros, como se fosse um felino. Farejou o ar, rugiu, um som cavernoso e rouco e saiu correndo, como o bípede que era, embrenhando-se na floresta além das montanhas.

Eu decidi de uma vez por todas ir embora. Mesmo condenado como uma criatura das trevas. Mesmo deixando Sila para trás. Ou quem sabe eu a visitasse no seu quarto para acabar com seu tormento eterno. Às vezes fico pensando se ela faria isso por mim. Enquanto dormia em seu leito eu separei sua cabeça do corpo com um facão de caça e não tive remorso disso. Tardiamente meus olhos se abriram diante daquela situação toda.

Montei num cavalo e desci o desfiladeiro na velocidade que a acidentada e estreita estrada permitia. Às vezes a galope, na maioria das vezes, todavia, em marcha. Vencido o trecho mais perigoso da viagem, onde as estradas serpenteavam rasgando os contornos irregulares das montanhas, fui perseguido por lobos, que incansáveis e determinados percorreram alguns quilômetros em meu encalço até que subiram um escarpado pico e começaram a uivar para a lua.

No percurso da viagem senti fome. E percebi pela primeira vez que a fome de um vampiro é algo torturante. Parece que suas veias arrebentar-se-ão e suas tripas reviram-se por dentro. Como se estivesse morrendo. Depois de algum tempo cavalgando, os primeiros sinais de civilização apareceram. Casas esparsas e acampamentos ciganos. Chaminés cuspindo fumaça e camponeses cortando lenha, ordenhando vacas e arrebanhando ovelhas. Eu precisava de algum deles para aplacar minha fome. Mantinha-me quase sem forças sobre o cavalo, balançando ao léu na sua cavalgadaura e pensei que fosse morrer no meio daquela paisagem desolada e selvagem.

Recobrei a consciência em outro lugar, como já estava virando rotina. Numa tenda, deitado numa cama bem confortável, rodeado de ciganos. Eles cuidaram de mim. Eu delirava febril. Por isso não me recordo de muita coisa, ou do que ainda guardo no cérebro, pouco pode ser considerado confiável. Sei que não sentia mais fome. Se de alguma forma aquele povo supersticioso, sabendo que eu era um vampiro, me alimentou, eu não sei. Não vou saber. Agradeci a eles como pude, com gestos e reverências e segui meu caminho.

Eu fui internado no asilo para loucos de Carfax logo depois, em decorrência do episódio que aconteceu numa taverna chamada "O embusteiro" no qual ataquei e matei cinco homens e suguei o sangue deles.

Embora fosse diagnósticado e tratado como louco, jamais sofri de demência alguma. Dr. Jack Sweard, que passou a nutrir certo fascínio inexplicável com relação aos meus hábitos e histórias, adoecera mais depressa do que este vosso frágil narrador.

Nos dias atuais eu me dedico ao ofício de jardineiro. Profissão do notório e respeitado Acar. Embora não tenha falado muito dele, foi o único vampiro que eu já senti alguma simpatia. Em 2019 eu encontrei o estranho conde Drácula novamente. Diferente das lendas e do livro, ele ainda vive, para meu lamento. E das muitas barbearias que existem em Bruxelas ele foi escolher justo essa, à duas quadras de onde eu moro, para se barbear. Quando o vi na mira do fio da navalha desse barbeiro que cuidadosamente escanhoava sua barba, eu pensei: Como queria ser eu a segurar essa navalha. O desgraçado me viu, sorriu e piscou para mim. Não aguentei seu escárnio e fui para um Pub beber.

Que tempos estranhos. Telas de aparelhos eletrônicos e a maioria se entretinha nesses objetos. Eu, claro, não me abstinha da tecnologia, mas não entendia porque razão isso ocupava a maior parte do tempo dessas pessoas. O teatro, a literatura, a música, as artes? Seria possível que nada mais importasse? Absorto em minhas conjecturas não percebi aquela presença. Ao virar-me Drácula estava ao meu lado.

– Que indelicado reconhecer um amigo de longa data e não o convidar para uma bebida.

– Achei que não bebesse, – indaguei.

– Não bebo vinho.

– Estava aqui pensando comigo. Você que é o mais velho dos vampiros poderá responder. Do que vale a imortalidade se os tempos nos trazem à decadência? – Perguntei apontando para aquelas pessoas.

– Os homens declinam e se erguem, meu caro. Por isso são admiráveis.

– E quando não existe mais dignidade, o que resta?

– Tornar-se um vampiro, – respondeu e brindamos.



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