• Elisa Ribeiro

Sem peso




Já havia limpado o pó da casa, varrido as folhas secas do jardim, recolhido as nêsperas deitadas ao chão — inúmeras — por causa do vento naquele abril desagradavelmente frio e acinzentado. Por volta do meio dia sentiu o cheiro inconfundível dele. Mas era cedo ainda, o mês mal iniciara.


A avó dizia que ela era médium por causa daquilo de sentir a presença das pessoas pelo cheiro. Mas isso fora há muito tempo. Médium às avessas, balançou a cabeça, achando graça.


Encontrou-o sentado na varanda, as costas arqueadas, a cabeça baixa, as mãos sobre os joelhos. Ocultou-se por trás de um arbusto qualquer, uma precaução desnecessária, aspirou profundamente o aroma que a pele dele exalava e suspirou sentindo a nuca e o colo afoguearem-se.


Ele costumava vir na última semana do mês. Recolhia as contas da caixa de correio, abria todas as portas e janelas para arejar a casa quando não estava chovendo, examinava se havia alguma infiltração ou se os telhados precisavam de reparo. Quando ele estava por vir, ela cuidava de não enfeitar com flores os jarros sobre as mesas. Junto com o jardim impecável causaria ainda mais estranheza, uma evidência adicional de sua presença além dos sonhos gozosos de que ele pouco se lembrava ao acordar sempre que passava a noite naquela casa.


Não se lembrava exatamente quando nem de que forma haviam começado aqueles sonhos que só aconteciam ali, na quinta que fora dos antepassados. Ela, ao contrário, se recordava preciosamente de tudo, nos mínimos detalhes. Seis décadas haviam se passado para ele; para ela, o equivalente a um entardecer sem graça.


Ele, em seus recém completados dezesseis, dormia. Ela, no quarto ao lado em seus eternos vinte e três, remexia-se agitada. O cheiro dele, que parecia ter peso na madrugada morna, a atraiu de sua cama antiquada, pelo corredor, até o último quarto na extremidade oposta onde ele dormia sozinho um sono inocente e pesado. Afundou a mão em seus cabelos cor de fogo tão iguais aos dela, alisou o rosto, os ombros, inspirou sem pressa seu hálito, deitou-se ao seu lado grudando seu peito ao dele e envolvendo em suas coxas roliças o quadril dele, àquela época esquálido. Pouco se importando se aquilo era certo ou errado, abandonou-se aos movimentos ondulatórios que seu desejo suspenso, ressuscitado naquela madrugada memorável, comandava.


Ele despertou agitado, gemidos involuntários escapando de seus lábios, no auge do seu prazer aparentemente solitário; ela cerrou-lhe as pálpebras com a ponta dos dedos sem peso. Pela manhã, a vaga lembrança de um sonho lúbrico para ele. Para ela, uma razão para prosseguir seus dias, semanas, meses, primaveras, a partir dali coloridos de sentido todas as vezes em que ele voltava a visitar a casa.


E ele sempre voltara. Primeiro, com os pais; depois, com os amigos, vez ou outra com alguma amiga, amante, namorada; com frequência aos finais de semana na meia idade solitária, nunca se casara. Agora na velhice vinha naquela reconfortante regularidade mensal, sem antecipação ou atraso.


Exceto nessa manhã, surpreendentemente no começo do mês. Observava-o, intrigada.


Após percorrer todos os cômodos escrutinando cada parede, sentou-se como sempre fazia na cabeceira da mesa de jantar, defronte ao enorme retrato de corpo inteiro que tomava o alto da parede. A avó de seu avô, altiva, grávida do único filho, com sua vasta cabeleira vermelha, um sorriso indecifrável esticando os lábios coloridos de um bordô que se harmonizava com as cortinas representadas no quadro, lhe emprestando uma sobriedade desmentida pelo verde dos olhos amendoados. Falecera ao dar à luz, um drama que somado aos seus impressionantes cabelos cor de fogo e àquele retrato assombroso pendurado em destaque na casa, a havia transformado em uma lenda familiar repetida por geração entre seus descendentes. Descendência essa que agora seria interrompida para sempre. Apenas ele restara, sem filhos, irmãos ou primos. A ninguém mais aquela história seria contada.


Estranhou a ausência da garrafa de conhaque que ele sempre abria para um ou dois tragos antes de sair para comer em algum restaurante da cidade. Também estranhou quando ele subiu as escadas, entrou no quarto que havia sido o seu desde a adolescência, deitou-se na cama e logo cerrou os olhos. Nunca em quase sessenta anos o vira deitar-se durante o dia, mas não se ocupou muito desse estranhamento. Amolecida pelo desejo de sempre, deitou-se logo ao seu lado.


Gemiam juntos quando ele descerrou os olhos. Ela como sempre os pressionou com as pontas dos dedos incorpóreos, mas as pálpebras não cederam à pressão fantasmagórica. Não percebes?, ele sussurrou. Ela percebeu, imaginava vagamente que aquele momento chegaria, só não saberia dizer se estava preparada. Contra sua vontade, sentiu desenhar-se em seu rosto o mesmo sorriso enigmático do retrato da sala. Beijou-o, a língua de duzentos anos serpenteando entre os lábios dele enquanto pensava no que dizer naquela hora.


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