• Elisa Ribeiro

Sete vidas

Meu pai teve um AVC e ficou seis dias internado. Tomei um susto quando soube, mas quando o vi, entubado na UTI, pensei: “Bem que ele podia morrer”. Melhor morrer do que viver a vida sem graça que ele vive. E de quebra me deixar o carro de herança. Fiquei os seis dias em que ele esteve internado com o carro dele. Estive no hospital todos os dias, mas não dormi nenhuma noite. Meu irmão e meu tio cuidaram disso. Meu irmão ficou muito abalado. Ele é um retardado, sempre foi, todo sentimental. Minha mãe só perguntava: “Seu pai melhorou?”, sem nenhum interesse na resposta. Foi nisso que se transformou um casamento de quase duas décadas. A separação foi a melhor coisa que aconteceu na vida dela. Acho que sei exatamente quando começou o fim do casamento deles. Meu pai chegou de uma feira com uns salames e umas linguiças e pendurou na porta da cozinha. Quando minha mãe viu aquelas coisas penduradas, ela não teve nem ânimo pra reclamar, apenas pensou, eu escutei, em voz alta: “O que eu estou fazendo casada com essa criatura?” Minha mãe não come carne desde os dezessete anos. Daí pra frente foi só confusão até o dia em que meu pai cismou que a minha mãe tinha um amante, pegou as coisas dele e foi pra casa da minha avó. Acho que ele pensou que minha mãe ia implorar pra ele voltar. Meu pai e meus tios têm essa mania de achar que valem alguma coisa, mas não passam de um bando de imprestáveis orgulhosos. Nunca percebi o menor vestígio de arrependimento com a separação por parte da minha mãe. Hoje de manhã falei: “Vou pegar meu pai, você quer ir junto? Acho que ele ia gostar de te ver lá.” “Não Bruno, não tem necessidade não. Diz pra ele que eu estimo melhoras.” Saí de casa pensando que um dia eles devem ter sido apaixonados e que o amor é mesmo uma palhaçada. Peguei um trânsito miserável. Mas trânsito não me incomoda muito, aproveito pra pensar. Fiquei pensando em como é estúpida a vida do meu pai. De casa pro trabalho, do trabalho pra casa. Á noite, raramente um chopp nalgum boteco barato com o único amigo que ele soube preservar. De resto, televisão, encorujado no segundo quarto na casa da minha avó, quarto que ela se conforma em ceder, porque, por gosto, tenho certeza, o teria vazio. Fim de semana, sai cedinho pra caminhar com seu passinho de tartaruga. Quando o tempo está bom, vai pra praia se esturricar ao sol do meio-dia e repetir uma conversa de frases feitas com os conhecidos que há meio século frequentam o mesmo ponto da praia. Quando eu era menor, até que gostava de ir à praia com ele. Ficava pegando onda enquanto ele se torrava no sol. Mas agora fico com um pouco de vergonha do meu pai. Velho, caído, com uma sunguinha fora de moda. Não dá. O idiota, bajulador do meu irmão é que de vez em quando vai com ele. Mas é nos feriados e nas férias que o nada que é a vida do meu pai se supera. Como ele tem um padrão na cabeça que diz que feriado e férias é pra o sujeito viajar, ele cisma de viajar. Só que ele é pão-duro, duro e sem imaginação. Então, o que ele faz? Se enfia na casa dos irmãos que desgraçadamente, por azar dele, moram em cidades sem nenhum interesse. Tenho um tio que mora em Volta Redonda, outro em Brasília e uma tia em Taubaté. Foi por isso que, quando o vi entubado, pensei que seria uma sorte pra ele morrer. Sair de cena sem sofrimento, sem humilhação e sem definhar na insignificância de uma vida inútil. É claro que eu gosto do meu pai. Mas eu não dependo dele, só financeiramente, um pouco. A gente também nunca teve muita afinidade. Acho que, no fundo, meu pai não gosta de mim, não se identifica, acha que eu sou independente demais, irônico demais, que não escuto os conselhos que ele me dá. Ele gosta mesmo é do imbecil do meu irmão. Acho que se ele morresse só mesmo o meu irmão ia chorar. Cheguei atrasado ao hospital. Meu pai estava sentado na recepção, com meu irmão do lado, me esperando. Sequer deu bom dia, disparou um comentário rabugento: “Obrigado Bruno, por chegar só uma hora atrasado pra buscar teu pai que quase morreu.” Escutei calado. O ressentimento dramático do meu pai já há muito tempo não me emociona. O médico que cuidou dele estava sentado com eles, sinal de que não deviam estar ali há muito tempo: “Como vai Bruno? E a faculdade.” Minha vontade foi responder que estava pensando em mudar pra veterinária. “Tá indo, tenho uma prova daqui a pouco.” “É Bruno, vida de médico é dura, desde a faculdade. Mas tem suas compensações. Por exemplo, ver o teu pai assim, novo em folha. Meu palpite é que ele vai viver até os noventa anos.” Cumprimentei o médico, agradeci, dei o braço ao meu pai, peguei suas coisas e tomei o rumo da casa da minha avó. O trânsito continuava pesado. Olhei todas aquelas pessoas, nos carros, nas ruas, e pensei que havia gente demais no mundo. Lembrei do que o doutor tinha dito minutos atrás, de que meu pai viveria até os noventa, e senti um cansaço horrível por ele. Pareceu-me o pior castigo a que alguém poderia condená-lo. Comecei a achar que era um erro eu querer ser médico. Salvar pessoas, postergar mortes. Pra que tanta gente viver tanto? Imaginei que podia dar um jeito ao menos na vida ordinária do meu pai atirando o carro de cima de um viaduto. Com sorte encurtaria as vidas inúteis de mais alguns além de nós três. Chegamos sãos à casa da minha avó. Vi meu pai arrastar as sandálias até a poltrona mais próxima, sentar-se gemendo e fixar o olhar na parede em frente com cara de pobre coitado. Dei-lhe um beijo na testa: “Vou pra faculdade, pai. Tenho prova daqui a pouco. Meu irmão vai ficar contigo. A noite passo aqui pra deixar o carro.” Ao abrir a porta, dei de cara com o gato da vizinha da minha avó. Senti ganas de chutá-lo contra o muro. Há muito tempo tinha vontade de testar se ele de fato tinha sete vidas. Mas senti o volume da cola pra prova de anatomia fazendo pressão no bolso esquerdo da minha calça. Não tinha tempo a perder, deixei o gato pra lá.

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