Sinais



"A voz do anjo sussurrou no meu ouvido; Eu não duvido já escuto os teus sinais..."


As pernas cansadas lhe doíam sob o peso do corpo e o ventre inchado dificultava sua respiração, mas a criança se agitava com força dentro dela, impelindo-a a continuar com seus passos lentos apesar de quase não ter mais forças.


Desde que havia se dado conta de que uma nova vida crescia dentro dela, não mais dormia. Passava as madrugadas perscrutando as horas sombrias até que o amanhecer a surpreendia ainda acordada e sem respostas. Naquela madrugada havia sido diferente, quando ouviu os sinos da igreja soando ao longe tão fora de hora e sem propósito, soube que era o sinal pelo qual vinha esperando, então, levantou-se em silêncio para que ninguém a ouvisse sair, pois sabia que, apesar da surra de vara de marmelo que seu pai havia lhe dado quando percebeu sua barriga crescendo, ele não permitiria que ela partisse.


Com cuidado para não fazer barulho, pegou a pequena trouxa escondida no fundo do baú onde guardava seus poucos pertences e que já tinha sido preparada há muito tempo. Levaria daquela vida apenas uma foto da mãe, a quem amava, e o terço que havia recebido no dia de sua primeira comunhão.


Sorrateira como um gato vadio e sem olhar para trás, saiu em direção à noite quente deverão.


Já na porta, por um breve momento sentiu medo e permaneceu ali buscando pela coragem que agora lhe faltava enquanto observava a lua solitária que lá de cima esparramava sua grinalda de prata sobre o solo de terra vermelha e fértil. Uma brisa tímida que movia as roupas no varal, fazendo-as dançar como amantes que celebram um reencontro há muito esperado, amenizava um pouco o calor que, mesmo àquela hora da madrugada, era sufocante e aquilo a fez lembrar dos finais de tarde quando, depois de um longo dia de trabalho pesado, sentava-se nos degraus da varanda e se punha a imaginar a pele morena cujo toque a fizera estremecer na noite de seresta aos pés da Igreja do Divino quando seus olhos se cruzaram por sobre a fogueira que iluminava a festa em louvor ao Santo.


Tímida, baixou a cabeça sentindo o rosto enrubescer, mas ele, sustentando o olhar que penetrava sua alma e desejava seu corpo, caminhou até ela e sem dizer palavra, segurou sua mão e beijou-a rosando os lábios levemente em sua pele. Com destreza, puxou-a para junto de si e a abraçou com força até que juntos moveram-se numa dança lenta ao som dos violões e sob os fogos de artifício que explodiam nos céus intimidando as estrelas.


Quando a música cessou, ela pousou a cabeça em seu peito forte e musculoso e o cheiro inebriante que emanava dele enfeitiçou-a por completo. Com um toque delicado que contrastava com suas mãos calejadas e queimadas pelo sol, ele prendeu uma mecha do cabelo fino atrás da orelha delicada de menina e sussurrou ao pé do seu ouvido uma jura de amor. Com sua voz de anjo, confessou que há muitas vidas corria o mundo a sua procura e que agora a busca havia acabado e ele poderia, enfim, descansar em seus braços.


Ela acreditou naquelas palavras com seu corpo e sua alma e naquela noite ele a tomou para si e, quando ao amanhecer, ele lhe disse que tinha que partir, ela chorou e ele prometeu que voltaria para buscá-la. Ela quis saber quando e ele disse que ela saberia quando ouvisse seus sinais e desde então ela passou a viver por aquela promessa.


A criança agitou-se dentro dela quebrando o encantamento provocado pela lembrança lembrando-a de que era hora de deixar aquela vida para trás e seguir seu caminho. Com enorme dificuldade percorreu os poucos quilômetros de estrada de chão que separavam a propriedade rural onde vivia e cidade ainda tão pequena. Mais de uma vez precisou parar para descansar até que avistou o pequeno aglomerado de casas que envolviam a igreja. Agradeceu ao santo de sua devoção sem perceber a sombra negra que circulava a torre do campanário rasgando o céu.


A madrugada fugia quando ela chegou à praça da igreja. As pernas fraquejaram no momento em que, ao olhar para a torre, se deu conta de que não havia qualquer sino lá em cima. Sentiu-se atordoada, como se prestes a perder os sentidos. Será que por força de tanto desejar, acabara imaginando o retinir do sino? A dor a invadiu fazendo-a sentir que o ventre rebentaria a qualquer momento, a hora havia chegado e ela estava sozinha, então decidiu seguir para a igreja, crendo que ela e o filho estariam seguros naquele lugar sagrado. Tentou se apressar, não queria que o filho morresse, ela o amava, assim com amava àquele que seria seu único homem para sempre.


Impulsionada pelo amor que nutria por aquela criança e com o pouco de forças que ainda lhe restavam, caminhou em direção às portas da igreja, mas não teve tempo de chegar ao seu destino, ali mesmo, sob a sombra escura e alongada que se projetava do alto do campanário, deu à luz a um menino que deslizou para o mundo em silêncio. Assustada, puxou-o para junto de si e pousou uma das mãos sobre o peito tão pequeno que subia e descia impulsionado pela respiração. Sentiu o coração que pulsava com força e o amou completamente.


Acariciou o cabelo pastoso e beijou sua testa, mas, antes que pudesse lhe dar o peito para matar sua fome e completar aquela ligação mística, a sombra empoleirada no alto do campanário saltou em sua direção. Aquele que fora seu amante e que havia feito nela aquela criança surgiu como que anunciado pelos sinos invisíveis que ela novamente ouvia badalar. Sem compreender de onde vinha aquele som que entorpecia seus sentidos, em meio às lagrimas e contra a sua própria vontade, estendeu o bebê para o homem que o agarrou com um único braço e que, parecendo não notar que a mulher fazia parte daquele momento e sem desviar os olhos do bebê, agarrou o cordão umbilical com a mão livre, levou-o até os lábios e rasgou-o com os dentes.


A dor que ela sentiu em sua alma foi maior do que toda a dor que havia padecido em seu corpo e mesmo fraca e sangrando diante daquele homem que agora lhe inspirava o mais profundo terror, lançou-se sobre ele retomar o bebê de suas mãos.


Só então ele voltou sua atenção para a mulher e com seu olhar ameaçador envolveu-a em uma teia invisível enquanto se aproximava. Tocou o rosto molhado pelas lágrimas e pelo suor e mais uma vez prendeu atrás da orelha delicada uma mecha do cabelo que caia sobre seu rosto, porém, desta vez não houve juras de amor nem promessas vazias. Fez aquilo apenas para deixar à mostra o pescoço moreno que envolveu com seus dedos longos até sentir que aquela vida que servira tão facilmente a seus propósitos havia se desfeito completamente. O corpo lívido e sem vida caiu inerte e, mesmo após a morte, permaneceu com os olhos abertos contemplando o céu.


Com um assobio agudo, a sombra conjurou o enorme cavalo e segurando junto ao peito nu aquela criança gerada para herdar sua alma sombria quando a pele que ele habitava não mais lhe, montou o animal sem qualquer dificuldade e cavalgou para dentro da noite.




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