Sob as asas da borboleta



O som das buzinas me trouxe de volta à vida. Pelo retrovisor, vi a fila de carros que se formava atrás de mim e percebi que, por um instante, estive ausente de mim mesma, como se minha alma – e minha consciência -, tivesse flutuado para fora do meu corpo e regressado chamada pelo alarido histérico dos motoristas que gritavam me dizendo que o sinal estava aberto. Engatei a marcha e sai sem pressa, pois nunca gostei de ser pressionada, mas dirigi com uma sensação estranha, sentindo um esgotamento físico e emocional que eu desconhecia. Tentei me lembrar de algo especialmente estressante que tivesse acontecido naquela tarde e me dei conta de que não conseguia pensar bem sobre qualquer fato do meu dia até o momento em que fui despertada pelo som das buzinas no semáforo. Meus pensamentos estavam vagos como quando tentamos nos lembrar de algo após beber demais e nada me vinha à minha mente de forma nítida. Ao chegar em casa, não consegui abrir a porta, minha chave simplesmente não se encaixava na fechadura, como se não fosse a chave certa para aquela porta. Respirei fundo tentando não me irritar e segui até a janela que dava para a sala de minha casa. Através do blindex vi minha família – marido e filhos -, sentada à mesa, o que era estranho, já que eles nunca chegavam em casa antes de mim e mesmo que já estivessem lá teriam que esperar por mim para preparar o jantar. Então, bati na janela com força, tentando fazer com que um deles olhasse em minha direção, mas ninguém parecia me ouvir. Continuei batendo no vidro e gesticulando sem ser notada até que outra pessoa surgiu no meu campo de visão. Havia mais alguém com eles e a princípio não reconheci quem estava la, forcei aos olhos tentando enxergar melhor até que, para meu total espanto, percebi que aquela outra pessoa era eu. Vi a mim mesma servindo a refeição para minha família, exigindo que os meninos parassem de brigar e comessem enquanto ouvia com atenção meu marido falar. Permaneci por algum tempo observando aquilo e tentando entender o que estava acontecendo até que a outra eu - aquela que ocupava meu lugar dentro de minha casa -, olhou em minha direção, me encarou por um tempo longo demais como que se afirmando e sorriu para mim. Aquela visão de mim mesma me deixou atordoada como se a realidade tivesse se partido por um momento, fazendo tudo perder o sentido e se tornar irreal. Corri para a porta da frente e bati com força, disparei a campainha, mas ninguém veio me atender, então, peguei meu celular para ligar para meu marido, mas antes de discar o número notei que os ponteiros do meu relógio de pulso estavam correndo ao contrário. Uma pontada forte perfurou minha cabeça me provocando náuseas. Sentindo-me fraca e perdida na total irracionalidade daquilo tudo, caminhei em direção ao meu carro, mas, antes que eu conseguisse chegar até lá, o mundo escureceu à minha volta, perdi os sentidos e desmaiei. Acordei numa cama de hospital, rodeada por minha família, todos me olhando com um misto de preocupação e alívio. A lembrança do que havia acontecido ainda estava latente em minha mente e quando perguntei porque estava ali, meu marido me explicou que eu havia desaparecido por várias horas e tinha sido encontrada inconsciente no meu carro, há alguns quarteirões de minha casa na noite anterior. Senti-me aliviada, crendo que tudo aquilo não passava de um pesadelo, porém, quando olhei para o relógio na parede do meu quarto, vi que os ponteiros moviam-se no sentido contrário.




0 visualização

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com