Sonho insólito





Você só me fez mudar

Mas depois mudou de mim

Você quer me biografar

Mas não quer saber do fim


Você Pode Ir Na Janela - Gram











Elisa entrou devagar pela porta da frente, era bem tarde e não queria incomodar o sono leve da mãe. Assim que colocou os pés na sala ouviu o barulho característico da velha poltrona do falecido pai. Era dona Tânia, envolta nas sombras do cômodo, lhe apontando o velho revólver trinta e oito de seu Ernesto.

- Que susto Mãe, o que a senhora tá fazendo? - Perguntou nervosa.

- Do que você está falando? Não sou mãe de ninguém - Respondeu num tom baixo e inseguro, com a face ainda envolvida na semi-escuridão.

- Por que a senhora tá com a arma do papai?

- Não sei do que você está falando, não sei quem é você e nem o que está fazendo nessa casa.

- Mas mãe...

- Não sou sua mãe moça - Interrompeu, seca.

- Me dá esse negócio, você não está bem.

A jovem deu dois passos, no terceiro o som metálico da arma sendo engatilhada foi ouvido. Elisa gelou na hora, desistindo do avanço.

- Fica ai! Não chega perto! - Ordenou a senhora de camisola.

- Tudo bem, tudo bem. Eu não vou chegar mais perto, mas por favor, larga isso, eu tô pedindo - A mulher pareceu não escutar, em vez disso inquiriu a jovem.

- Quem é você? E o que está fazendo nessa casa?

- Mãe essa é a minha casa, é sua também, essa é a nossa casa, não lembra?

- Eu sei que essa casa é minha, mas está muito diferente... diferente demais - A mulher parecia perdida.

- Mãe...

- NÃO ME CHAMA DISSO! - Um grito doloroso ecoou na casa.

- Não me chama mais disso... Minha cabeça dói toda vez que você me chama assim, então para!

Elisa nunca tinha visto a mãe daquele jeito, uma senhora com saúde de dar inveja a qualquer um da sua idade. Depois da morte de seu esposo Ernesto, Dona Tânia saiu do luto direto para uma vida bem mais calma e saudável, era estranho vê-la assim, com a arma de seu pai, que ela não via desde criança.

- A senhora deve estar cansada - Disse com calma, tentando se aproximar.

- Eu estava dormindo. Então acordei gritando de dor - A mulher falou mais para si mesma do que para a filha.

- Dor?

- Sim. Parecia que eu tava morrendo, eu não sei.

- E depois?

- Eu sai da cama e fui até o guarda roupas, eu... eu estava com medo e com muita dor, então achei essa arma.

- Achou?

- Sim.

- E onde estava?

- Numa caixa escura com cadeado.

- Um cadeado com segredo?

- Sim. Eu sabia da combinação.

- Claro que sabe, você é minha...- Disse sem terminar a frase.

A mulher levantou o revólver com firmeza e apontou para a testa da não-filha.

Seus olhos estavam vidrados.

- Não fala!

- Desculpa, eu...

- Nunca vi aquele guarda roupa antes, aquela caixa e muito menos aquela arma. Por Deus, eu nunca segurei uma merda dessas!

A mulher falava a verdade. De algum modo ela soube onde o revolver estava, assim como combinação exata para pega-la. Mas lembrar disso lhe trouxe uma dor lancinante, como se a própria informação entrasse no seu cérebro na ponta de uma furadeira.

- A arma era do papai, ele comprou depois que a casa foi...

- Invadida – completou a mulher.

- É.

- Ele sempre deixava no quarto, carregada e trancada na caixa. Só eu sei da combinação, mas não sei como sei disso. É estranho, nunca estive nesse quarto, nessa cama, mas me lembro de tanta coisa…

Um filete de sangue correu pelo nariz. A mão enrugada que segurava a arma tremeu por um instante.

- Você não está bem. Eu posso cuidar da senhora, mas tem que abaixar essa arma.

- É como se eu estivesse aprendendo tudo sobre alguém que viveu uma vida toda em minutos. Isso dói, doi muito.

- Você lembra do papai?

- O nome dele era Ernesto Ferreira Santiago, tinha sessenta e quatro anos, morreu de... - a voz se perdeu na explicação por três longos segundos - ataque cardíaco. Foi num sábado - Uma lágrima rolou sem cerimônia. Agora, o ouvido sangrava também. Ela abaixou a arma e relaxou um pouco a postura, como se estivesse cansada.

- Ernesto... não...

- Eu sei, também sinto saudades dele.

A mulher de camisola segurou a cabeça como se estivesse sofrendo novamente aquela terrível perda. Algo pareceu se quebrar dentro dela. Algo íntimo. Elisa tentou se aproximar para pegar a arma, mas foi repelida por um safanão e caiu sentada no carpete da sala.

- Não, não, não, não, isso é um pesadelo!!

- Mãe!

- Não! Eu não sou sua mãe! Meu nome não é Tânia, é Denise. Eu tenho dezessete, não sessenta, droga!

- Do que você tá falando?

- Essa casa é toda estranha pra mim, mas eu lembro de tudo que está nela, cada quadro, cada quarto, cada xícara da cozinha. O quintal, o quintal... - A mulher girou no próprio eixo olhando para cada canto.

- O que tem...

- No quintal tem os restos do Ralf.

- Meu cachorro.

- Sim, ele morreu quando você tinha onze anos. Fui eu que enterrei, seu pai não teve coragem. Mas eu nunca tive um cachorro, muito menos uma filha, entende?

Elisa não sabia o que dizer. Talvez sua mãe estivesse enlouquecendo.

- Meus pais diziam que eu não era responsável o bastante.

Uma dor profunda atravessou seu crânio com violência. O osso parecia estar rachando. Ela sentiu o mundo girar e suas cores se misturarem num doloroso momento. Lembrou de sua mãe Lúcia, dos pedidos chorosos implorando pela adoção do animal. Lembrou também daquela vida que nunca teve, da chuva do fim da tarde, do quintal com cheiro de grama molhada, da pá nova abrindo a pequena cova. A dor só aumentou.

- É um sonho - disse Tânia.

- Mãe?

- Só pode ser. Eu só preciso acordar...

Ela olhou nos olhos de Elisa uma última vez, apontou-lhe a arma e disse:

- Tudo é apenas um sonho não é?. Só isso.

O tiro atingiu a têmpora de Elisa em cheio, logo as lágrimas desceram.


A arma então atirou mais uma vez.

Denise acordou num pulo, assustada em meio às lagrimas. Foi até o quarto dos pais e os viu dormindo calmamente, secou o rosto e voltou para sua cama.


Nunca soube do estranho caso acontecido do outro lado da cidade, onde uma mãe matou a própria filha e se matou em seguida.










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