O sorriso do lobo: parte I


“A emoção mais antiga e mais forte do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido.” - H. P. Lovecraft -


O aroma adocicado e sensual das laranjeiras preenchia a noite morna enquanto ela caminhava distraída ao som das batidas do pequeno salto sobre o caminho de lajotas que cortava o parque completamente vazio àquela hora. Estava cansada após um longo dia de trabalho e só pensava no moço de olhos claros e braços fortes que havia conhecido no início daquela noite e em como ele havia sido gentil e demonstrado interesse por ela. Falara pouco e passara a maior parte do tempo ouvindo-a falar sobre seus sonhos e sobre sua vida com uma atenção à que ela não estava acostumada. Não desviara os olhos nem por um minuto, como se algo nela o enfeitiçasse e, além de bonito e bem-educado, os trajes finos que ele vestia a fizeram imaginar que ele poderia ser um bom partido.

Estava perdida em seus devaneios quando foi tomada pela nítida sensação de que alguém se aproximava por suas costas. Sentiu um sopro suave mover seus cabelos como se alguém respirasse ao pé da sua nuca. Assustada, olhou para trás, mas não havia ninguém ali. Era somente ela e as centenas de árvores que margeavam seu caminho para casa. Riu daquele medo bobo e voltou a caminhar perdida em lembranças até que seus pensamentos foram interrompidos pelo uivo alto, lamentoso e solitário que ecoou por toda a extensão do parque, fazendo um forte tremor percorrer todo o seu corpo.

Pôs-se em alerta sentindo como se algo em seu íntimo a avisasse que corria em perigo.

- É apenas um cão - disse para si mesma tentando se acalmar e, temendo olhar para trás, acelerou o passo invadida pela certeza de que aquele lugar de repente se tornara hostil.

Jurou que não aceitaria mais o turno da noite, afinal, aquele caminho iluminado apenas pela lua e onde não se via vivalma não podia ser seguro para uma menina perambulando sozinha. Diante daquele pensamento, mais uma vez lamentou sua sina de pobre órfã de pai e mãe e condenada a viver com sua avó, a quem cabia sustentar com seu parco salário, no pequeno casebre no bairro distante de tudo.

Refletia sobre sua má sorte quando um farfalhar de asas batendo sobre sua cabeça a fez estancar novamente. Olhou em direção a lua gorda e prateada que reinava absoluta na noite sem identificar de onde vinha aquele som que anunciava medo e, apesar do calor abafado que fazia, sentiu frio.

Um princípio de pânico começou a apoderar-se dela que instintivamente apertou a capa vermelha em volta do corpo frágil como se aquilo pudesse protegê-la, então se deu conta de que um silêncio absoluto e perturbador pairava ao seu redor. Nada se ouvia, nem o constante som da brisa movendo as folhas das árvores, nem o onipresente som dos pássaros abrigando-se em seus ninhos.

O parque ao seu redor emudecera. Perscrutou a vastidão de bétulas e faias que ladeavam o caminho e teve plena certeza de que havia olhos no meio da noite a observá-la. Aterrorizada, percebeu em meio à densa vegetação a respiração daquilo que a espreitava formando uma nuvem de vapor e, antes que aquilo pudesse atacá-la, ela correu e o que quer que estivesse escondido entre a folhagem pôs-se a correr também.

Agora ela podia ouvir passos ágeis e velozes entre as árvores e galhos que se quebravam para dar passagem àquilo que vinha em seu encalço. Não olhou para trás. Apenas correu sem descanso e não parou nem mesmo quando teve certeza de que seu peito explodiria, porém, após tanto esforço, suas pernas a traíram fazendo-a tombar no chão pedregoso derrubando a sacola que trazia nas mãos espalhando por todo lado os alimentos que levava para alimentar sua velha avó.

Paralisada, sentiu a ardência no joelho ferido de onde sangue escorria abundantemente. Com os olhos embaçados pelas lágrimas ouviu passos que se aproximavam com calma. Sem que tivesse tempo para se levantar, percebeu alguém ao seu lado e sentiu uma mão tocando seu ombro de forma tranquilizadora. Quando, enfim, teve coragem de olhar para cima reconheceu os olhos que a haviam observado naquela noite.

- Não tenha medo, agora você está a salvo – ele disse sorrindo com seus dentes brancos enquanto a ajudava a colocar-se em pé.

Mas por algum motivo, ela não se sentiu segura.

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