Subterfúgios


Ele corre em direção ao canal e mergulha fazendo mais barulho do que pretende, ouve o primeiro tiro seguido dos os gritos, mas não para — voltar agora seria pior do que morrer tentando, seria condenado como dissidente e nem mesmo sua pouca idade impediria que ele fosse jogado nas celas da Stasi — então ele continua enquanto treme de frio e medo. Falta pouco para chegar à outra margem do canal onde algumas pessoas já conseguem vê-lo e o incentivam a continuar apesar dos guardas de fronteira que gritam insultos e ameaças às suas costas.

O coração está disparado, está escuro e faz muito frio, mas ele está decidido: não vai voltar, não há qualquer razão para continuar naquele lugar sem liberdade e sem futuro, prefere arriscar tudo a viver uma vida amordaçada. Apesar da certeza, o corpo não para de tremer, ele está inquieto, só quer que tudo acabe o mais rápido possível, mas sabe que tem que esperar o momento certo. Alguns poucos minutos se arrastam por uma eternidade até que uma nuvem encobre a lua indicando que é chegada a hora.

A água fria o engole e por alguns segundos ele sente o corpo petrificar-se, a dor de mil agulhas perfuram sua pele mas ele começa a nadar. Agora que está ali, pensa que talvez devesse ter esperado por uma noite sem lua, mas é tarde, não há volta. Sente que está vulnerável e visível demais. Sempre foi um bom nadador, mas naquele canal é completamente diferente da piscina do Clube Operário. A água extremamente fria dificulta seus movimentos e ele avança devagar com braçadas contidas. O medo de ser visto domina sua consciência.

Ele ouve a bala cortando o ar quando o segundo tiro passa a poucos centímetros e sabe que o terceiro será definitivo, então mergulha buscando abrigar-se na escuridão. Permanece submerso até que o ar em seus pulmões acaba obrigando-o a retornar à superfície para não sufocar. Um único instante e o terceiro tiro ecoa. Ele sente a bala que atravessa sua nuca e sai por seu queixo, estranhamente não sente dor e, nos poucos segundos de consciência que lhe restam, observa a outra margem enquanto seu corpo submerge.



A ansiedade a faz bater insistentemente o salto do sapato no calçamento de pedra. A angústia só a deixa quando ela vê o filho correndo em sua direção. Teme por ele, teme que sua natureza bondosa e sua ingenuidade o transformem em um alvo, ela sabe como as crianças podem ser cruéis. Assim que o sinal soa, o som das vozes enche o ar enquanto dezenas de crianças correm em meio a brincadeiras e risadas. A mulher tenta encontrar o filho em meio àquele tumulto de cores, mas ele é o último a sair. Pela primeira vez está sozinho e caminha em sua direção cabisbaixo enquanto ela o espera com um largo sorriso no rosto.

— Oi meu amor, está tudo bem? Como foi a aula hoje? — Pergunta gentilmente, abaixando-se para olhar o filho nos olhos e lhe beijar a testa.

— Oi mamãe — O menino responde com desânimo descabido para sua idade.

— Aconteceu algo? Você parece triste.

— O Joseph foi embora — responde e seus olhos denunciam uma profunda tristeza.

— Ah! Meu amor, não fique triste com isso, há tantas outras crianças para você brincar, logo você terá novos amigos, você vai ver — ela abraça o filho sentindo-se aliviada, não terá mais com o que se preocupar.

— Mas mamãe, o Joseph é meu melhor amigo — diz o menino se soltando dos braços da mãe.

— Eu sei, meu anjo, mas ele não pode mais estudar aqui.

— Mas ele me disse que não queria ir embora e o pai e a mãe dele também estavam tristes por terem que ir. Eu não entendo porque ele teve que ir.

— Ele teve que ir porque ele é diferente de você e das outras crianças meu bem. Tome, coma isso, eu só ia te dar depois do jantar, mas vai fazer você se sentir melhor. Não gosto de te ver triste assim — disse entregando ao filho uma barra de marzipã branco e cheiroso.

O menino enxugou as lágrimas que insistiam em inundar seus olhos e mordeu o doce, a princípio, parecendo aceitar aquela explicação como as crianças costumam aceitar aquilo que lhes é dito pelos adultos, mas após alguns minutos voltou a questionar a mãe.

— Mamãe, o que há de diferente com o Joseph?

A mulher passou algum tempo em silêncio, pensando na resposta que daria e decidiu que a verdade era sempre o melhor caminho, não poderia esconder as coisas do menino para sempre, ele precisava entender como a vida funcionava.

— O Joseph é judeu, meu anjo, por isso teve que ir embora.

Foi a vez do menino ficar em silêncio por um longo tempo.

— E se o Spitz for judeu ele terá que ir embora também?

— Não se preocupe meu bem, não existem cães judeus. Cães são apenas cães... — Explicou a mulher rindo da ingenuidade do menino.

— Então apenas pessoas são judeus?

— Sim, meu amor, apenas pessoas.

O menino encarou a mãe por alguns instantes, tentando assimilar a informação, de repente, seus olhos pareceram se encher de medo.

— E se eu for judeu, mamãe? Eu terei que ir embora?

— Não seja bobo, você não é judeu! Não há judeus em nossa família!

— Afirmou enfática.

— Como você sabe disso?

— Porque nossa família tem documentos que comprovam que somos arianos! — disse sem disfarçar o orgulho.

— E o que são arianos?

— São os verdadeiros alemães meu filho, somos nós, as pessoas que estão construindo um país novo e grande.

— Então os arianos não precisam ir embora?

— Claro que não, a Alemanha é dos arianos!

— E o que são documentos?

— Bem, documentos são papéis que provam que algo é verdadeiro.

— Então são os papéis que dizem quem é judeu e quem é ariano?

— Sim, filho, de certa forma sim.

Os olhos do menino brilharam diante da descoberta.

— Então nós podemos escrever no papel que o Joseph ariano, assim ele não precisa ir embora e pode voltar para a escola! — disse animando-se com a ideia.

A mãe respirou fundo sentindo-se um pouco cansada, parou de caminhar e abaixou-se para olhar o menino nos olhos enquanto segurava seus ombros com carinho.

— Não é simples assim, querido, se fizermos isso estaremos mentindo, seria um crime, poderíamos até ser presos. Não podemos simplesmente dizer que uma pessoa é ariana, não é assim que funciona. Ainda mais se essa pessoa for um judeu.

— Mas mamãe, se é um papel que diz se uma pessoa é judia ou ariana e...

— Chega dessa conversa!— interrompeu falando um pouco mais alto que de costume.

— Mas mamãe, eu não entendo...

— Acontece, meu filho, que algumas coisas a gente não tem que entender, tem apenas que aceitar! — a mulher falou com firmeza encerrando o assunto.



A vida tinha sido difícil durante a guerra, seu pai havia desaparecido no Leste e sua mãe havia morrido durante os bombardeios aliados, mas agora todo o horror havia ficado para trás, ele se tornara um guarda de fronteira e sua função era proteger seu país do inimigo encravado no centro de Berlim enquanto um muro começava a ser erguido no lugar onde, até então, uma cerca de madeira reforçada com arame farpado tinha sido suficiente para delimitar as zonas de influência na capital derrotada.

A construção de um muro dividindo e isolando a cidade parecia uma medida extrema, mas o fizeram crer que era essencial para protegê-los. Era difícil entender como é que de repente os alemães acabaram se dividindo em ocidentais e orientais, afinal, aquelas pessoas tinham vivido a vida toda na mesma cidade. Eram pais, filhos, irmãos e irmãs uns dos outros, tinham lutado lado-a-lado e sobrevivido à guerra, aquilo não parecia ter lógica. Talvez por isso a parte mais difícil do seu trabalho fosse a ordem de atirar em qualquer um que tentasse atravessar de um lado para o outro. Aquilo nunca havia acontecido em seu turno e ele rezava para que nunca viesse a acontecer.

Aquela noite estava calma, o frio e as AK 47 mantinham as pessoas longe da fronteira e ele podia desfrutar da visão que tinha do alto da torre de vigia: dali ele podia observar boa parte da sua cidade e também a Berlim Ocidental. Os alemães do outro lado não pareciam intimidadores vistos lá de cima.

O latido dos cães fere a noite interrompendo seus pensamentos, logo ele percebe uma agitação próxima ao canal no único trecho em que não havia arame farpado dividindo a cidade. Ele ouve a voz dos guardas que gritam e xingam e só compreende o que está acontecendo quando o canhão de luz é direcionado para a água e o movimento denuncia que há alguém tentando atravessar o canal a nado.

— Atire! — grita o guarda ao seu lado e sua reação é mecânica. Ele age exatamente como havia treinado exaustivamente. Aponta a arma para aquilo que se movimenta nas águas escuras e, enquanto tenta mirar, vê através do visor o jovem de cabelos louros e braços finos que avança com dificuldade. Apesar da distância, percebe que aquele fugitivo não passa de um garoto, talvez muito mais jovem do que ele. Aquilo o incomoda, porém, ele segue o protocolo e dispara o tiro de aviso, mas o rapaz continua nadando. O guarda ao seu lado grita a ordem de atirar novamente, e ele mira mais uma vez, não para acertar, e dispara esperando que o jovem desista — não quer o tiro fatal — mas o movimento continua e agora todos os guardas gritam exigindo o último tiro.

Ele hesita por um breve momento: aquilo não era como atirar em russos ou americanos, não era como matar um inglês ou um francês, ele teria que matar outro alemão, alguém igual a ele. Em um ínfimo espaço de tempo ele fecha os olhos e algo lhe diz que há coisas que não precisam ser entendidas, então ele atira.

A bala atinge a nuca do fugitivo e o corpo submerge em seguida.




17 visualizações

© 2019 porandubarana. Orgulhosamente criado com Wix.com