Teto nublado





I ain't got many friends left to talk to

Não me restam muitos amigos com quem conversar

No one's around to run when I'm in trouble

Ninguém está por perto quando estou com problemas

You know I'd do anything for you

Você sabe que eu faria qualquer coisa por você

Stay the night but keep it undercover

Passe a noite aqui, mas não conte para ninguém


Your Love

- The Outfield











Sob o tempo nublado, feio como uma TV fora do ar o homem estava sentado no parapeito do edifício em que trabalhava. Ali, parado a vinte dois andares acima do chão permanecia triste e pensativo. Seu rosto era uma máscara de fria de desgosto que cobria o desespero gritante da soma de cinquenta e dois anos desperdiçados.

Ele tinha certeza que tudo que vivera até ali não foi nada do que havia sonhado, planejado ou desejado desde o começo. Alguns casamentos fracassados, pensões exorbitantes, filhos distantes, advogados insistentes, além do trabalho rotineiro e sufocante que há muito tempo o deprimia. Já não se lembrava da última vez em que tinha se sentido realmente feliz nos últimos anos. Nada. Nem uma gota de felicidade ou algum pequeno suspiro de esperança.

Não tinha muita coisa que o motivasse a seguir em frente. No último ano tudo piorou. A descoberta do câncer avançado, as consultas tensas e os tratamentos caros lhe geraram dívidas grandes demais para qualquer um pensar em lidar com tranquilidade.

A morte de sua primeira e mais amada esposa, a única mulher viva que tinha consideração por ele também o atingiu em cheio. “Marina, por que você teve de ir?” - Pensou enquanto uma lágrima pesada rolou. A casa seria perdia em poucos meses, os cartões estavam quase todos cancelados, assim como a conta bancária que já estava no negativo. O carro que era a última amostra de seu orgulho pessoal tinha já sido tomado pelo banco há quase uma semana.

Mesmo com isso lhe tirando o sono sempre era possível piorar. E piorou. Mais cedo ele tinha ouvido uma conversa rápida atrás da porta da sala da diretoria, em que as últimas palavras foram “desligamento”, seguido de seu nome e sobrenome numa frase casual entre seu chefe e a responsável pelo departamento de recursos humanos da firma. Sentindo que esse era o prego que faltava em seu caixão o homem decidiu ir até a cobertura para pensar sobre a vida e provavelmente não voltar mais dali. Pelo menos não pelas escadas.

Já era fim do dia, e ele como sempre era o último a deixar o escritório. Enquanto subia os últimos degraus da escada de incêndio parou pra pensar que em mais de uma década trabalhando ali nunca tinha subido a cobertura para admirar a vista, que como ele percebia somente agora era realmente de tirar o fôlego. Sem nenhum edifício tão grande ao redor era possível ver a grande cidade fervilhando enquanto a noite se deitava cobrindo toda sua extensão até o longínquo horizonte.

O homem foi até o parapeito, olhou para baixo e sentiu medo. Mesmo assim o calou e decidiu esquecê-lo por um momento. Sentou sobre a borda de cimento frio e desgastado do topo por algum tempo, como se esperasse por algo, como um sinal, um pensamento, ou até mesmo uma resposta. Para os três, o homem só conseguia pensar na sensação de seu corpo mole batendo no concreto liso em frente à fachada marrom chocolate do prédio. Tinha mais motivos para descer por ali do que voltar pelos elevadores da firma.

Por um tempo pensou um pouco mais no que faria em seguida. Cruzou as mãos sobre o colo e viu o relógio de pulso que Marina havia lhe dado de presente no primeiro ano de casamento. Era um bom relógio, comprado com muito esforço na época em que eles quase nada tinham. Estava bem desgastado e era até alvo de chacota de alguns de seus colegas de trabalho, porém ele sempre o usava.

O objeto tinha gerado diversas brigas com suas outras esposas, mesmo assim tinha lugar cativo em seu pulso. Era como se uma parte dela ainda o acompanhasse. Ao vê-lo não conteve as lágrimas e chorou copiosamente, como nunca tinha feito. Aquilo então era sua decisão. Não ficaria naquele mundo um minuto a mais, com sorte veria Marina mais uma vez, e agora talvez para sempre.

Ele então se pôs de pé sobre a mureta desgastada e olhou uma vez mais para a cidade ao redor, ela parecia alheia a todos os seus problemas, já que tinha os seus próprios dilemas pra resolver. A questão é que ele também não estava nem aí pra ela. Não mais. O homem então abriu um grande sorriso no rosto e olhou pra cima. O tempo fechado parecia anteceder uma grande tempestade.

Ele se inclinou um pouco, preparando-se para o salto e olhando a avenida que esperava passiva sua queda. Antes de deixar o peso e a gravidade fazerem seu trabalho ele pareceu ouvir algo. Atrás dele ecoou o barulho da porta de incêndio se abrindo devagar. Ele olhou para trás, mas não conseguiu ver ninguém que a estivesse abrindo. A cobertura inteira parou num silêncio absoluto por um longo segundo e o homem se intrigou um pouco, mas no segundo seguinte logo se voltou ao que ia fazer, dando as costas para a pesada porta semi-aberta. Foi no ultimo momento que ele ouviu uma voz que vinha de seu lado esquerdo.

- Se eu fosse você não faria isso agora. - assim que a frase terminou um vento forte bateu a porta de aço com violência. O homem tomou um grande susto, caindo desequilibrado de costas no chão da fria cobertura.

- Mais que porra! - urrou o homem de dor.

- Podia ter sido pior. - afirmou uma voz feminina vindo da porta.

- Mais que diabos?!

- É, eu sei como é. - disse ela.

- Quem é você? E o que está fazendo aqui? Aqui é proibido para pessoas que não são funcionários sabia? Você não devia ter subido aqui! – bravejou o homem no chão, visivelmente furioso pela oportunidade perdida.

- Ei nervosinho, calma ai. Alguém já te disse que não é bonito fazer tantas perguntas a uma dama?

A mulher que falava vestia um belo blazer escuro e calça risca de giz bem cortados e alinhados a um corpo esguio de modelo. Ela andava a passos curtos na direção dele, calçava sapatos de salto tão alto que parecia um milagre da física ela estar equilibrada sobre eles em movimento contínuo. Os cabelos eram longos e lisos, compridos até a fina cintura. Sobre o rosto, lentes claras numa armação vintage austria cobriam um lindo par de olhos verde claro, que de alguma maneira mudavam de tom enquanto se ela movia.

- Primeiro, não adianta me apresentar, já que você me conhece. Segundo, eu vim te ver. Terceiro, o acesso a essa cobertura é exclusivo da manutenção e pelo que sei você é da contabilidade. E por último e não menos importante, já faz tempo que nenhum homem diz o que posso ou não fazer.

Ainda tentando se equilibrar sob os cotovelos o homem apenas falou:

- Como é que é?

- Ora, não fique com raiva de mim só por que estraguei seu salto, vamos lá, acho que fica mais excitante com platéia não acha?

- Mas… - ele ficou sem ação quando entendeu o que ela tinha visto.

- Vamos lá você não precisa ficar tímido agora. Eu vi que estava pronto para fazer.

- Eu já entendi. - disse o homem ficando em pé. - Você deve ser a pessoa que contrataram para o meu lugar. Agora deu pra entender porque fui substituído. - a mulher de blazer colocou a cabeça de lado e arqueou de leve as sobrancelhas como se tentasse entender as palavras do homem.

- Não me leve a mal, isso não tem nada a ver com você ser uma mulher bonita, mas com certeza os velhotes bastardos que mandam nessa empresa terão algum tipo de plano sujo pra você. É uma pena.

A mulher desconhecida abafou uma pequena gargalhada com uma das mãos, olhando pra baixo enquanto tentava controlar o riso.

- Tsc, tsc, tsc... Vocês homens, sempre preocupados, desconfiados e paranóicos. - ela riu de novo - Por isso adoro trabalhar com vocês. Mas você está errado se pensa que vou trabalhar nessa empresa.

- Então se não vai ficar no meu lugar o que você esta fazendo aqui? Todo mundo já foi embora e se você não percebeu aqui não é a saída. – bufou, visivelmente irritado.

- Não se preocupe, não trabalho pra ninguém. Sou minha própria chefe se posso dizer assim. Pense em mim como espécie de pequena empreendedora. - falou ela, ajustando os óculos impecavelmente limpos enquanto olhava para ele.

- Então você é algum tipo de vendedora de bíblias ou remédios para emagrecer? Desculpe mas não estou interessado. Boa noite seja lá quem você for. - falou, caminhando em direção da porta de saída passando direto pela estranha mulher.

- Bem, em minha defesa você não me deu tempo pra apresentações, e para alguém que está à beira da morte deveria tratar melhor um livro sagrado como a bíblia.

O homem gelou, parando quase em frente da porta de emergência. Aquela mulher que já o tinha chateado agora o estava assustando de verdade, pois fora ele e seus médicos ninguém sabia de sua péssima condição de saúde.

- Do que você está falando? – intrigou-se, virando o rosto novamente para a desconhecida.

- Estou falando do que tem dentro de você.

A mulher tirou um pequeno pirulito de gengibre do bolso do blazer, o desembalando sem pressa.

- Não faço idéia do você está falando.

- Seu câncer querido, estou falando disso. Desculpe se às vezes não sou tão objetiva, acho que é o cansaço. Muito trabalho ultimamente.

O homem não respondeu, se limitando a olhar pra ela com uma cara perplexa e quase sem cor alguma.

- Mas como... - ele tentou articular uma frase, porém foi em vão.

- O cheiro.

- O que?

- Esse tipo de coisa tem um cheiro característico que pessoas com certas habilidades podem sentir. É quase imperceptível, mesmo assim alguns animais como os cães conseguem farejar. - explicou ela, provando vagarosamente o pirulito.

- Você só pode ser do hospital não é? Diga ao doutor Henrique que mandar uma mulher com ameaças não vai fazer com que ele receba os atrasados!! - vociferou ele, já mudando de expressão.

- Ei, você não está achando que sou um garoto de recados não é?

A voz feminina soou com ironia afiada.

- Seja lá quem você for é melhor ficar longe de mim. Estou avisando.

- Bem, se isso o deixa melhor saiba que o pobre doutor Henrique vai receber seus atrasados com juros em provavelmente um mês.

- Mas que merda que você está falando? Pra quem não trabalha no hospital você está sabendo demais.

- Dada sua condição, seu corpo não deve aguentar mais que um mês. Assim seu seguro de vida deve pagar seu médico e todas as despesas que ficarem em aberto. Que bom que pelo menos isso você esteve pagando religiosamente em dia. Pelo menos por enquanto.

Já sem paciência o homem fechou os olhos por um momento e disse:

- Olha aqui, nem sei por que estou dizendo isso, mas aqueles especialistas desgraçados me deram pelo menos seis meses. Também não sei de onde você soube da minha doença e muito menos porque está falando que vou morrer em um mês. E se isso for algum tipo de piada ou trote de mau gosto é melhor que pare agora.

A cobertura ficou num silêncio estranho até que a mulher enfim falou:

- Na verdade para algumas pessoas a vida é uma grande piada de mau gosto.

Ouvindo isso o homem voltou-se para porta de metal, mas antes que pudesse abri-la a voz da mulher ressoou novamente, quase sussurrando num tom um tanto sinistro:

- Você não perguntou meu nome.

- Isso não faz diferença pra mim. – falou seco, fechando a porta de metal e deixando a mulher só.

Após atravessar a porta desceu os degraus pensando naquele estranho encontro, tentando achar alguma explicação para aquilo tudo. Aquela mulher parecia ter um interesse estranhamente mórbido nele. Depois de mais alguns degraus ele abriu a outra porta de emergência esperando encontrar o andar onde tomaria o elevador, mas para sua surpresa tinha voltado para a cobertura nublada e novamente para a estranha mulher.

- Você saiu sem se despedir. - disse ela, agora sentada no parapeito, com as longas pernas cruzadas e um grande sorriso estampado no rosto.

O homem assustou-se. Não fazia a mínima ideia de como aquilo era fisicamente possível. Mesmo indo em frente ele tinha voltado exatamente onde estava antes. A mesma cobertura. A mesma mulher.

- Legal não é? Já enlouqueci muita gente com esse truque. - ela balançava o pirulito de gengibre enquanto falava.

- Eu só posso est...

- Estar sonhando? Pra você infelizmente Não. Mas é o que a maioria pensa. A questão é que esse é o mundo real. Alterado apenas por um truque barato meu. Sonhos são complexos e simples ao mesmo tempo. Além de terem influência e controle muito grande sobre quem está sonhando. Já parou pra pensar que você nunca se perguntou durante um sonho em que estava voando o quanto aquilo era impossível ou improvável? Claro que não. Você só teria condições se fosse um sonho lúcido, o que é algo raro de acontecer, já que na maior parte dos sonhos quem é controlado é você. Porém, infelizmente não tenho nem essa influência muito menos esse controle. Nossa, acho que estou falando demais né?

- Na verdade eu ia dizer maluco.. - ele aparecia aturdido com as palavras dela.

- Hum, é claro, esse com certeza seria meu segundo palpite. Mas não, você não está louco. No máximo bastante deprimido.

- Então o que estou fazendo aqui?

- Pelo que eu entendi você veio atrás de uma solução rápida para acabar com o resultado de toda a dor e tristeza de sua vida. Algo até lógico para alguém em sua situação. Então olha eu aqui. Eu vim até você.

- E quem é você?

- Essa é a pergunta certa minha criança. - disse ela, apontando o pirulito de gengibre na direção do homem de olhar confuso. - Não sou bem quem, mais sim o que. Sou mais conhecida como a personificação de algo que o homem conhece desde o princípio. Deixo até você tentar adivinhar. Uma dica, não é algo do bem.

- O diabo.

- Bingo!

Assim que falou aquilo uma grande asa negra brotou do lado esquerdo de suas costas. O susto derrubou o homem no chão com as costas para a porta de incêndio. Cada pena da grande asa parecia ter um pequeno olho vermelho demoníaco.

- Sim, esse é um dos meus nomes, porém tenho vários outros. A lista é beeem grande. Mas não vamos perder tempo com assuntos técnicos, eles são bem cansativos e geralmente muito chatos. Pode me chamar por qualquer um desses sem cerimônia alguma.

- Mas você é uma mulher? - quis saber ele.

- É sério? Você está perguntando pra um ser que está aqui desde a criação do mundo se tenho gênero? - ela revirou os olhos nas orbitas enquanto recolhia a grande asa - As vezes vocês humanos são mais idiotas que animais irracionais. Geralmente perguntam se eu sou a morte e se vim levá-los. Ou mesmo se Deus existe, não que tipo de genitais eu tenho. - ela bufou - E antes que pergunte, sim ele existe, mas não venha me encher o saco com perguntas sobre ele, porque nossa conversa aqui é outra.

- Me desculpe. Estou tentando assimilar.

- Isso é natural. E pra ter ideia do quão chocado está você acabou de pedir desculpas ao príncipe das trevas. E respondendo a sua pergunta ordinária não, eu não sou mulher e também não sou homem, estou um pouco além disso, na verdade estou mais de meia eternidade além. E olha que falo isso com certa humildade. Porém me visto da forma que desejar, dependendo da situação é claro. Essa forma é apenas uma das muitas que gosto de vestir.

- Acho que entendi, só não entendi o que você quer de mim.

- Agora sim uma pergunta realmente inteligente. - ela fez uma pequena pausa provando o pequeno pirulito e logo prosseguiu.

- Vim aqui fazer negócios. Negociar com você meu caro e triste amigo, isso se você desejar é claro.

O homem pensou por um momento.

- Que tipo de negócio?

- Que tal uma troca? Uma nova chance na vida, e no seu caso uma vida nova.

- Se não percebeu não tenho muito o que negociar.

- Perspicaz, perspicaz... - ela continuou, agora andando lentamente na direção dele.

- Na verdade você não tem nada.. pelo menos nada útil pra você no momento. Porém, pra mim sim.

- O que seria?

- Sua alma imortal.

- E o que eu ganho em troca? - quis saber.

- Interessante.. você não parece estar com medo ou disposto a discutir o quanto isso é errado, ou até mesmo implorar para que eu saia de retro. - os lindos olhos verdes mudaram para um preto sombrio e absoluto.

- É como você disse, eu não tenho nada a perder.

O demônio em forma de mulher riu sob o teto nublado, estendeu a mão ao homem e disse:

- Então acho que temos um acordo.











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