• Elisa Ribeiro

Um céu para Maicon


Olhos arregalados, ora sentado, ora deitado, jogado na calçada. O sono não vinha, a madrugada se arrastava. Era a terceira noite sem dormir, mas ele não se lembrava.


Lembrava, sim, da infância, em flashes desconectados. Os irmãos, os pés sobre a lama, os gols que fazia no campinho do bairro, as histórias rimadas que a avó contava. Ele, o mais velho, ao lado da mãe, os irmãos, um pela mão o outro ao colo, indo para igreja aos sábados. Por que aquele tempo bom havia passado tão rápido?


Madrugada alta, bateu uma fome desesperada. Só tinha o resto de uma pedra de crack e um pouco de Coca-Cola. Acompanhando o amargor da fome, as lembranças também azedaram. O pai caindo de bêbado, os gritos da mãe, a primeira noite passada na rua após o dono do barraco expulsá-los. O tempo ligeiro da infância terminou ainda mais rápido: os dias na rua, mendigando comida, correndo atrás de um trocado, custavam a passar. A princípio a droga fez tudo parecer bom como antes. Aos poucos, fez o tempo definitivamente parar. Como nessa noite que não terminava.


Levantou trôpego, o estômago colado às costas. Remexeu uma lata de lixo, o cheiro o fez vomitar uma bile rala. Desceu a rua na direção da praia. Uns duzentos metros adiante, numa esquina, um despacho. Pipoca, cachaça, flores, roupas usadas. Sentiu medo. Um medo distante, da época feliz em que ia com a mãe ao culto nos sábados e o pastor dizia que macumba era coisa do diabo. Mas a fome foi maior.


Comeu feito um bicho, a cara enfiada no prato, a cachaça serviu para empurrar as 150 pipocas secas garganta abaixo. Quando levantou, começou a girar em torno de si na direção anti-horária. A cada volta o corpo mais convulso, o giro mais acelerado. Quem visse não acreditaria, mas a rua estava absolutamente deserta àquela hora. Finado o último giro, caiu desacordado. De bruços, a cabeça pousada no chão duro da calçada, dormiu um sono de morte.



Dila levantou-se assim que o dia se insinuou pelas gretas do telhado. O menino ainda ardia ao seu lado, mas já não tossia nem chorava. Embrulhou-o bem e amarrou-o às costas, precisava ter as mãos livres para colher as folhas e raízes que a mãe havia indicado. Queria dar um banho no menino e preparar-lhe um chá antes da rotina na fazenda começar. Só pedir aos deuses não estava adiantando, carecia de fazer alguma coisa para aquela febre baixar.


Assustou-se, achou que estava morto, o corpo esparramado embaixo de uma árvore. Que roupa seria aquela, se perguntou. E aquele calçado? Aproximou-se e viu que o negrinho respirava. Devia ter fugido de alguma fazenda. Não cheirava bem, nem negro nem bicho. Cheirava coisa estragada e fumaça. Tratou de voltar, precisava cozer as plantas e banhar o filho antes de todo mundo acordar.


A mãe disse que cuidava do menino, que ela fosse logo contar sobre o escravo fugido, talvez ganhasse algum agrado. Dila esperou acocorada na frente da casa do capataz, não ousou bater na porta. Assim que ele saiu, contou sobre o sujeito, o negrinho fedido, vestido de forma esquisita e com os pés calçados. Estava ao pé de um Cambucá, na borda da mata, nos fundos da propriedade.


— De onde você fugiu, moleque?


O capataz o acordou com a ponta da bota. Maicon olhou para o homem sem entender nada, as palavras soando como um grunhido indecifrável. Ressaca ruim de crack com cachaça, sono, sede, a cabeça pesada.


O tempo voltara, um ano por cada pipoca comida do ebó. Castigo do orixá pelo abuso de se apossar do que a ele havia sido ofertado. Estava em uma fazenda, melhor dizendo em uma chácara, exatamente no local onde havia tombado depois de se intrometer no despacho, em Copacabana, só que 150 anos atrás.


— Fugi, não senhor! — Maicon respondeu com a língua embolada na terceira vez que o capataz insistiu, chutando já com alguma violência suas costas.


O homem mandou os dois escravos que o acompanhavam amarrarem o jovem ao tronco do Cambucá e abaixarem sua calça. Sacou da cintura a chibata e ergueu o braço, mas diante da magreza do garoto, as pernas do diâmetro do pulso de um negro normal, desistiu da chicotada.


— Serve nem para apanhar!


Foi se aconselhar com o patrão sobre o que fazer com o moleque. O patrão falou que se o sujeito era como ele dizia, magro e fraco, que o alimentasse antes de tudo. Iria assuntar se havia fugido algum escravo das fazendas próximas. Se não houvesse, que fosse usado como escravo doméstico, já que na lavoura, pequeno e franzino, não renderia.



Dila e Maicon se entenderam bem desde a primeira troca de olhares. O de Maicon, embaçado pela droga e pela estranheza da situação cujo enredo intuía, mas não sabia explicar. O de Dila, ansioso por encontrar alguém, qualquer um que fosse, com quem se pudesse enredar.


Bento, o menino de Dila, era filho de um abuso que ela sofrera certa tarde voltando sozinha de um banho de cachoeira, a roupa branca transparente por causa da água, nos limites mesmo da fazenda. Não viu sequer o rosto do homem que a abusara. Ele a havia pego por trás e depois a largara meio viva, meio morta, a cara afundada na palha úmida da mata.


Tinha treze incompletos quando emprenhara sem saber ainda o que era interesse ou vontade de homem. Aos quatorze, Maicon pareceu-lhe um presente dos deuses aos quais rogara nas noites insones acalentando Bento e sonhando um par.


Depois de limpo das drogas, a fissura e o mal-estar acalmados por uma mistura de folhas que a mãe de Dila macerava em mel e o fazia engolir ou inalar, Maicon entendeu mesmo sem compreender, comparando o cenário que via com as histórias ouvidas na escola, que havia voltado ao passado. Viagem no tempo, já tinha visto acontecer em filmes assistidos na TV com a mãe e os irmãos antes de serem despejados.


A garrafada também lhe dava energia e como por mágica fizera cessar a dor persistente, incapacitante até para algumas tarefas, que sentia no ombro por causa de uma bala perdida nele alojada. Também havia a comida, um feijão grosso cozido com carne curada no sol e misturado com uma farinha grossa e muita pimenta da boa amassada. Em pouco mais de uma semana, recheadas suas carnes magras, o capataz concluiu que ele já aguentaria uma meia dúzia de chicotadas e, portanto, estava pronto para se agregar às tarefas da casa.

Dila ajudava na cozinha. Sua mãe cozinhava, ela lavava os pratos e ariava com capricho as panelas até encontrar no brilho turvo e convexo delas os próprios olhos marrons, bem maiores do que eram. A Maicon coube ajudá-las na lida da cozinha com o serviço mais pesado de limpar o chão e esfregar sem descanso as paredes escuras de fuligem que nunca haveriam de ser novamente alvas.



O primeiro beijo, os dois trocaram nas areias da praia, Bento dormindo ao lado, sob um filete de lua minguante, o céu assustadoramente estrelado. Maicon sentiu uma coisa no estômago e outra coisa, uma pressão mais embaixo, e desejou que o tempo parasse. Dila montou sobre ele deslizando o corpo de um lado para o outro, para cima e para baixo. Os beijos foram ficando mais líquidos, a areia mais macia; o vento, um afago morno; o céu, testemunha silenciosa.


Mas logo chegaram à praia outros negros, tambores e oferendas nos braços, e os dois se separaram. Maicon nem se aborreceu tanto, ficou sentindo o gosto bom de Dila na boca; estava treinado em saber que tudo que era bom passava logo.

Dila quis se aproximar da roda formada pelos negros assim que as batidas de tambor, os cantos e as palmas iniciaram. Maicon lembrou o velho medo incutido pelo pastor em outra época, mas acabou seguindo-a, dois passos atrás, arrastando os pés cautelosos.


Estavam a cerca de cinco metros, Dila à sua frente oscilando e batendo os pés no chão ao ritmo das palmas, quando um negro envolto num pano estampado em amarelo, girando, rompeu a roda em direção a eles. Parou em frente a Maicon, as pálpebras semicerradas, só o branco dos olhos visível, a expressão séria. Da boca quase fechada saiu como um choramingo, num fio de voz, um pedido.


Que voltasse, gemeu repetidamente o negro atuado. A voz era do irmão mais novo, que nascera nove anos depois dele, o pai já perdido para o álcool. Maicon, no papel de um quase pai na falta do verdadeiro, começara a usar drogas por não dar conta de ver o pequeno com fome, dormindo na rua, sem banho nem escola. Seus olhos encheram de lágrimas. Agora que estava limpo, sabia, o orixá só o fizera lembrar, que os irmãos, a mãe, precisavam dele, carecia achar um caminho de volta.


O negro fez um meneio brusco de cabeça, um requebro de ancas e deu meia volta, a boca num riso sardônico, os olhos ainda virados, a entidade nele montada satisfeita com o efeito causado em Maicon.



Maicon estava feliz em sua nova vida cativa. Sentia-se pleno do pouco que precisava.


Pela manhã, havia, assim que o sol subia, o trabalho, ainda que sem salário, preenchendo seu dia, ainda que sob o fantasma da chibata. Para comer, havia sempre o feijão misturado à carne ao fim do dia, um único prato farto feito de sobras. Havia, sobretudo, os braços macios de Dila e o bebê já pronto que logo, certamente, iria chamá-lo de pai.

E se pudesse fazer vir a mãe, os irmãos?


— Como assim, meu filho? Para serem escravos e viverem essa vida desgraçada?


Foi a fala do velho, espécie de babalaô, cego de um olho, escravo na fazenda como ele, que organizava o culto dos negros das redondezas quando tinham algum momento de folga. Além do mais, desconhecia feitiço para tal. Podia, sim, tentar desfazer o malfeito do orixá, devolver Maicon ao futuro, quiçá precisamente à data em que ele estava antes de tudo começar. Conhecia uma mandinga e um local bom para o despacho. Mas precisava ser noite de lua inteira. Maicon teria dois dias para decidir se era isso mesmo que desejava.


A vida estava de bom tamanho, mas pensando bem, tão precária quanto outrora. Passado e futuro se equivaliam na avaliação de Maicon da própria história. Havia apenas que escolher entre Dila e Bento ou a mãe e os irmãos e para isso fez um cálculo rápido. Com a mãe, tinha dezesseis anos de história; com Dila, talvez nem dois meses, embora de tão bons parecessem apenas algumas horas.


Disse a Dila que partiria por um tempo, mentindo que voltava. Porque não tinha outra coisa de valor, deu a ela seus Nikes falsos, o tênis de que ela tanto gostara, pedindo que os guardasse.



O dia se apagava em púrpuras e lilases e a lua ainda não tinha emergido da água quando Maicon e o velho chegaram ao local combinado. O despacho era para ser feito em um platô na Pedra do Leme, acessível por uma picada e uma pequena escalada. Mas como o saco que tinha às costas com a coisas para o trabalho estava pesado, o velho achou melhor ficarem pela praia mesmo, no canto, onde as ondas lambiam as pedras da encosta.


Antes de começar, o velho disse a Maicon que pedisse mentalmente e com muita força o desfecho que desejava. O rapaz pediu, mas com cautela, no mesmo molde prudente instruído pela mãe quando ela o ensinara a rezar para os deuses da religião dela. Que as coisas corressem conforme fosse melhor para ele, foi seu pedido tímido e breve.


Depois que a lua subiu aconteceu de um tudo naquele canto da praia. Na falta de um feitiço específico para o objetivo pretendido, o velho juntou todas as mandingas que conhecia na tentativa de fazer aquela hipótese de viagem no tempo dar certo. Ao longo de todo o serviço, primeiro como parte dos trabalhos, depois por puro regalo, os dois beberam muita jeribita, a cachaça dos escravos.



Maicon acordou com a claridade do sol ferindo seus olhos por baixo das pálpebras apertadas. Virou o corpo, o rosto na direção contrária, a areia arranhando sua pele, mas não adiantou nada. Ao abrir olhos, a cabeça confusa ainda sob o efeito do álcool, Copacabana vista do Leme àquele crepúsculo de rosas e dourados, pareceu-lhe o paraíso na Terra.


O velho não estava ao lado, tampouco a montoeira de coisas usadas no despacho. Logo saberia que também não encontraria Dila, ou o pequeno Bento, tampouco a mãe e os irmãos mais novos. Assim como não encontraria mais negros — nem brancos — escravos ou não, dormindo na rua ou em toscas redes remendadas. Todos sob aquele céu, que logo se revelaria azul e ensolarado sobre sua cabeça ainda atordoada, agora tinham teto, comida, saúde, educação e trabalho, porque um futuro feliz como sua infância, enfim, havia começado.

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