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Uma bala para meu amor





A voz do anjo sussurrou no meu ouvido

Eu não duvido, já escuto os teus sinais

Que tu virias numa manhã de domingo

Eu te anuncio nos sinos das catedrais


Anunciação

- Alceu Valença







A capacidade de entrega requer concentração nas sensações de prazer. Os que não se entregam são orgasticamente perturbados.


Frase de

- Wilhelm Reich











Paola fumava sossegada, sentada numa poltrona vermelho carmim no centro escuro do quarto luxuoso. Vestida apenas por meias pretas e longas ela tinha seu olhar fixo na direção do teto. Dentro da penumbra, nuvens de fumaça eram expelidas por lábios vermelhos tão brilhantes que pareciam reluzir na sombra quase infinita do cômodo. Por baixo dos borrões de maquiagem seu rosto era uma moldura quase divinal de beleza feminina. Olhos tão verdes que pareciam esmeraldas esculpidas por anjos talentosos, mas que no momento eram apenas um par de lindos olhos tristes. A extensão corpórea de seu rosto era tão bela e perfeita quanto se podia imaginar, curvas delicadas e formas deslumbrantes davam a ela uma postura que chegava perto do etéreo.

Aconchegada no que parecia um trono para uma verdadeira rainha, se mantinha pensativa, não emitindo ruído algum, apenas fitava o vazio na calma paciente de quem tem quase todo o tempo do mundo para gastar. Entre os dedos macios um cigarro vagabundo quase no fim, saboreado como se fosse o último, milímetro a milímetro. Cada vez que a brasa acendia quase se viam os pingos de sangue sob seu o rosto parcialmente maquiado. Ela porém não se importa, pois aquele sangue não é seu. Com calma ela observava o resto do cômodo, que por estar semi escuro não exibia toda a imponência luxuosa do espaço construído para a luxúria particular dos poderosos.

Entre dois pequenos móveis de carvalho pesado pintados à mão estava posicionada uma grande e bela cama macia, que por acaso tinha um recém defunto descansando despreocupadamente. Graças a luz débil do único abajur cor lápis lazúli de um dos móveis do recinto era possível ver uma espécie de flor de sangue ao redor do rosto sem emoção do homem. Havia também pequenos respingos em desenhos aleatórios sobre a cabeceira, o móvel, o abajur e até mesmo no chão. Quase na mesma posição, no teto, cobrindo parte do grande espelho rachado estava uma nuvem escura e sólida de tons rubros do que a poucos minutos era a maior parte do celebro dele. Para Paola a imagem lembrava vagamente algum tipo de geleia de framboesa estragada.

O cigarro apaga, transformando-se agora num pequeno toco moribundo de brasa fumegante. Ela levantou-se, indo sem pressa até a cama de seu amante. Tal como Paola o morto estava nu, afundado confortavelmente sobre o colchão e os lençóis novos de seda cara. Ali onde alguns minutos atrás ela e o recém defunto estavam trocando suaves carícias após uma hora e meia de sexo ímpar, a qual o morto se estivesse vivo diria ser a melhor noite de sua vida, se não estivesse morto, é claro. Paola que também tinha aproveitado bem a noite sentia seu sexo ainda quente e úmido lhe rendendo algum pequeno e pulsante prazer derradeiro. O gosto da boca dele em seu corpo era a como uma última doce lembrança.

Ao olhar para o espelho quebrado do teto ela se vê, e não deixa de rir um pouco do reflexo distorcido de si. Ela que tinha se preparado tão bem para aquela noite, estava do jeito de que ele sempre pedia: batom vermelho, totalmente depilada e usando apenas meias pretas com salto vermelho. Era como ele gostava. Por um momento pensou: " - Por que diabos eles sempre gostam disso sem pelo nenhum? - Não encontrou resposta razoável para si mesma. Mas mesmo não tendo muito gosto pela situação cedia e fazia como ele pedia. Teria feito mais, muito mais, até mesmo descartar sua vida sem piscar pela dele. Se ao menos o maldito não a tivesse traído e transformado o imenso amor que ela tinha por ele um gigantesco sentimento de ódio e amargura que agora corria em suas veias substituindo seu próprio sangue, como parte indivisível dela. Ele a tinha transformado em um monstro. Um monstro vingativo. Ela acariciou a cabeça do morto suavemente com um carinho quase maternal, transformando a palma de sua mão direita numa uma espécie de luva de sangue vivo.

Sem desgrudar os olhos do ex-amante, Paola foi até o outro móvel da cama, pegando o pesado revólver 38 sobre a peça de carvalho lustrado. Ela nunca havia atirado na vida e até imaginou como seria difícil fazer aquilo, mas ao puxar o gatilho ela sentiu algo leve, como se a força devastadora do revólver de cano curto lhe tirasse todo aquele ódio e o mandasse direto para o meio da cabeça daquele traidor miserável numa pequena e singela bala prateada. Fora fácil deixar a pequena arma escondida na cama e esperar a melhor hora para usar, tão fácil como colocá-la em baixo de seu queixo e disparar. Um único tiro barulhento logo encoberto pelo silêncio asfixiante. Ela imaginou se ele tinha se dado conta do que aconteceu. Pensou de novo e decidiu não se importar.

Pelo tempo que já havia se passado era bem provável que os seguranças do governador estivessem a caminho daquela suíte, pois mesmo que o morto tivesse alugado o andar inteiro do hotel mais cedo ou mais tarde eles viriam. Ela sabia disso, só não saiba como aquela noite iria terminar. Através do silêncio fora do quarto ela ouviu alguns passos apressados no corredor e vozes nervosas próximas a porta. Seu tempo então tinha acabado. A segurança investe com força contra a porta que treme debilitada a cada golpe. Ela por sua vez bem tranquila vai até o banheiro da suíte e checa as quatro munições restantes, apaga de vez o resto do cigarro coberto de batom na pia imaculada e olha o próprio rosto no grande espelho uma última vez. Ergue o braço e pinta calmamente com os dedos um coração com o sangue do jovem político amante, dentro dele ela desenha um pequeno escorpião vermelho e pensa:

“ - Amanhã vai ser foda..”

No minuto seguinte três equipes de segurança do governador entram na suíte junto de alguns policiais, todos com armas destravadas. No som tranquilo da madrugada intocada ecoam quatro tiros ferozes de calibre 38, imediatamente seguidos de uma enxurrada de gritos e tiros de armas automáticas. Um tempo depois só se ouve o silêncio...










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