Uma canção para o fim do mundo


A gritaria diminuiu lá fora. Não falta muito tempo agora para o fim. Acho que é por isso que não escuto mais a agitação desesperadora que tomou conta do mundo nos últimos trinta dias.

Estou em minha velha poltrona na sala de meu pequeno apartamento. Moro aqui há mais de dez anos e não é porque tudo vai se acabar que vou sair daqui.

O que eu tenho para fazer lá fora? Ficar correndo feito louco de um lado para o outro? Encher a cara e ir desta para melhor completamente fora de órbita? Trancar-me em uma igreja qualquer e ficar rezando por um milagre ou pela salvação eterna? Não, não. Acho que ficar escutando uma música enquanto a a hora final não chega é a melhor coisa a se fazer

Há um mês começaram a noticiar que um asteroide com um diâmetro superior a quinhentos quilômetros vai se chocar contra o oceano Atlântico. Quando isso ocorrer o impacto será de tamanha magnitude que lançará pedaços da crosta terrestre no espaço. Isso decretará o fim da vida na Terra. Não há muito o que possamos fazer.

Pego-me olhando pela janela e pensando que não haverá mais o amanhã. Ninguém acordará cedo para ir trabalhar, as escolas não receberão mais alunos, as dívidas não serão mais pagas, aquela cerveja no fim de semana com os amigos nunca mais vai acontecer, encontros fortuitos deixarão de existir. O universo continuará, mas nosso planetinha azul não contará mais com a existência humana.

Inicialmente foi o caos total. Violência, assassinatos, roubos, incêndios, profetas do fim do mundo em cada esquina, pessoas correndo para tudo quanto é lado, muita gente querendo fazendo tudo o que não havia feito em uma vida inteira.

Pensei em fugir. Mas para onde fugiria? Entrei em desespero. Aconteceu que em algum momento cheguei a conclusão que tudo aquilo era inútil. Terminei ligando o modo foda-se e agora estou aqui em meu apartamento apenas esperando o fim de tudo.

Tanta coisa passando pela cabeça. Tenho quarenta anos exatos, o mundo vai se acabar e eu aqui sozinho. Sei que parece clichê, mas eu queria que pelo menos Clarice estive aqui. Acho que nesse momento ela deve estar com sua família, amigos ou sei lá aonde. Meio sem graça essa de querer que uma antiga paixão estivesse com você só porque o mundo está se acabando, mas é verdade... queria muito ela aqui agora.

Fico pensando que musica escutar. A história humana produziu milhões de músicas e eu não sei o que escutar. Uma sinfonia? Uma música dançante? Uma balada romântica? Uma música folclórica de um país qualquer?

Só queria uma música que servisse de trilha sonora.

Termino escutando um rock progressivo antigo, coisa de mais de cinquenta anos atrás. A música é longa, fala em cinzas queimando, descobertas interiores, esse tipo de coisa. Achei ela linda.

As notas da melodia invadem meus ouvidos e da janela de meu apartamento vejo um casal de idosos passeando na praça, eles estão de mãos dadas, riem e conversam sobre alguma coisa que jamais saberei. Eles nem ligam para o carro queimado ali próximo. Sinto uma certa inveja deles.

Uma pequena tristeza ameaça grudar em minha pele. Não é aquela coisa desesperadora, é mais como uma melancolia que vem do fato de saber que não terei uma segunda chance em minha vida. Não haverá mais tempo para nenhum projeto, sonho ou desejo meu ser executado. Levei uma vida comum e deixarei de existir. O máximo que vai acontecer é que os átomos que compõem meu corpo serão transformados em alguma coisa, mas não sei se isso serve de alento.

A música terminou e coloco uma outra qualquer. As horas passam. Minha vida e a de todo mundo terminará em pouco tempo. Será que vai doer muito quando chegar o momento? É melhor nem pensar nisso...

A campainha toca. Quem será? Tudo está para deixar de existir e alguém aperta uma campainha? Por um segundo aquela campainha tocando produziu em mim uma sensação de continuidade, de familiaridade com algo rotineiro, mas isso logo passou.

Decido olhar pelo olho mágico.

É Clarice quem está lá fora.



*Este conto foi escrito tendo como trilha sonora as músicas “Ashes are burning (da banda Renaissance, 1972) e “Esta gravação se autodestruirá em cinco segundos” (de Dulce Quental, 1987).

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