Uma prece aos mortos (final)



"Voltou à vida já com a morte nele..." E. Hemingway

Uma névoa pesada vinda dos charcos ao sul abraçou o mundo e um silêncio denso e opaco pairou sobre mim no momento em que descortinei o pano mortuário que cobria o corpo de Olívia. Senti que minha visão ficava turva e que desfalecia quando me deparei com seu rosto de donzela, lívido e úmido, emoldurado pelos cabelos que caiam em cachos volumosos e reluzentes ao seu redor. Já não mais havia cor em suas faces e seus lábios que tomados pela avançada decomposição retorciam-se em um medonho esgar exibindo o sorriso sereno de dentes brancos e perfeitos como marfim, como se zombando de mim e de minha dor. àquela visão, compreendi com total clareza que aquela que fora minha esposa, ainda que presa aos grilhões do além, não me daria paz enquanto lhe fosse possível manter-me ao seu lado. Olivia havia recebido meu nome e o título que o acompanhava e, como em uma transação comercial qualquer, havia pagado devidamente por ele. Ela poderia ostentá-lo como desejara sua família, mas não se contentara com isso, ela queria mais. Em vida, talvez por acreditar que o dinheiro de sua família tinha lhe comprado o direito a mim, à minha liberdade e à minha afeição, havia desejado me aprisionar em uma existência para a qual eu não tinha qualquer aptidão e à qual eu sucumbira em razão da decadência financeira de minha família, o que sempre seria para mim motivo de vergonha e eterna humilhação. Pareceu-me que aquele ainda era o desejo de Olívia que em sua morte havia, enfim, despertado para a vida e foi com um terror extremo que ouvi, sem que a boca tomada pela rigidez cadavérica manifestasse o mais insignificante movimento, sua voz proferir a palavra acusadora que me perseguia desde o dia de sua morte. Assassino! Com minha dignidade derrotada e tendo como única testemunha a lua branca que rasgara as nuvens para contemplar minha desgraça, tomei em meus braços o corpo rígido de Olívia, cujo coração pareceu-me ainda pulsar e, com dificuldade, caminhei em direção ao casarão, pois estava decidido a não permitir que ela alcançasse seu vil intento. A noite já ia avançada quando depositei o corpo no chão de meu escritório e sobre ele despejei todo absinto que encontrei em minha adega. Senti o cinismo vazio me consumir e o ódio me dominar e, dando ouvidos ao demônio que soprava suas palavras doces em meu ouvido, lancei sobre ela uma pequena centelha de fogo subtraída da lareira. Sentei-me em minha poltrona para observar com olhos inquietos o corpo de minha esposa morta unir-se ao seu espírito e ambos serem devorados pelo fogo. Acreditava que assim iria expurgar para sempre sua presença daquela casa e, sobretudo, da minha vida. Enquanto sombras disformes dançavam ao meu redor numa ciranda demoníaca, o fogo consumiu a camisola branca de renda que cobria o corpo de Olivia e se espalhou apressado pelas tapeçarias antigas, pelos livros de capa de couro e pelos móveis de madeira até tocar o teto de ébano negro tornando-se em poucos minutos labaredas que consumiam tudo ao seu redor com a mesma voracidade com que eu havia consumido o ópio e o láudano em meus dias de loucura e medo. Em algum momento, quando a casa já estava tomada pelo fogo, senti braços fortes me arrastarem para fora dali e me abandonarem no chão frio. Ouvi o tumulto de vozes que não reconheci e que gritavam com urgência tentando em vão salvar o casarão das chamas devoradoras. Observei o fogo arder esticando seus dedos em direção ao céu e escondendo a lua atrás da fumaça densa e feia que subia em ondas assustadoras crepitando na noite sem estrelas. Os criados da casa estavam no gramado e olhavam atônitos à ruína daquela casa que vinham servindo há gerações. Nos rostos sombrios e escurecidos pela fuligem e pela preocupação, não havia tristeza e era possível perceber algo que se assemelhava à admiração pelo espetáculo das chamas contra o negror da noite. O casarão de meus antepassados ardeu durante toda aquela madrugada longa e calma de inverno e quando o amanhecer cinzento se insinuou no horizonte, ouvi alguém dizer: “Está acabado”. Aquelas poucas palavras me despertaram do transe que havia me acometido e sobressaltado compreendi que o único bem que me restara ardera em fogo até ser reduzido a um monte de entulho fumegante. Nada mais me restava. Naquele instante de lucidez, desabei de joelhos na terra molhada e chorei até que, como um eco que gradualmente declina até se desfazer no ar, perdi completamente os sentidos.

Louco! É como me chamam agora os homens e eu, preso a essa cama, amordaçado, amarrado, privado de minha herança e de todos os aspectos de minha tão cara liberdade, ouço-os conversar sobre mim e sobre minha incapacidade mental como seu eu não estivesse presente. Dizem eles que fui consumido pela loucura diante da dor da morte de Olívia, a quem acreditam que eu amava, afirmam em vozes sussurradas que naquela noite em que tentei expurgar sua presença de minha vida para sempre tinha eu procurado me juntar a ela numa malfadada tentativa de suicido. Tolos! Nada sabem sobre as visões perturbadoras que me perseguem ou sobre os sons melancólicos que entoam em meus ouvidos torturando-me com a lembrança acusadora. Não sentem o odor de sândalo que em mim penetrou de alguma forma para nunca mais me deixar e nenhum deles pode ver aquele sorriso doce e gentil que, desde o crepúsculo até as primeiras horas da manhã permanece ali imóvel, sempre no mesmo lugar, a me atormentar e a me acusar e a zombar dos grilhões que me atam a este quarto escuro e me prendem a essa vida débil.

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