Uma prece aos mortos (III)

Parte III



"Os homens não se entregam aos anjos, nem à morte completamente..." J. Glanvill


Fui contaminado pela doença do medo e as asas negras do terror sobrevoaram meu coração e, embora meu discernimento tenha sido coberto pelas trevas, não havia de minha parte qualquer dúvida acerca do que eu havia presenciado naquele anoitecer em meu escritório e do significado que aquela visão aterradora possuía. Olivia voltara do hades para se vingar. Como uma alma mesquinha, deixara o descanso eterno para me impedir de herdar seu dote e assim me privar da liberdade que, como ela sabia, me era tão cara. Entretanto, apesar de minha certeza quanto a isso, não ousei dizê-lo a ninguém, pois temia que minha sanidade fosse questionada e que, eventualmente, aquilo pudesse afetar o recebimento de minha herança. No dia seguinte à primeira aparição de Olivia, tão logo o dia amanheceu, fui despertado de meu sono agitado pelo estrondo das janelas de meu quarto sendo abertas por mãos invisíveis e pelo vento vespertino que invadiu meus aposentos. Temendo deparar-me novamente com aquele rosto marmóreo e aqueles olhos de serpente, permaneci com os olhos fechados e no mais completo silêncio, tremendo sob as cobertas. Não tardou a que meu quarto fosse tomado por murmúrios indistintos at´q eu senti um suspiro profundo em meu ouvido que me fez gritar horrorizado, todavia, não fui atendido por qualquer dos criados que pareciam alheios ao meu sofrimento. Ainda dominado pelo terror e pela angustia, permaneci imóvel até que o lugar ficou em total silêncio e tomei coragem para me levantar e buscar abrigo junto à companhia dos meus serviçais. Desde aquele dia, a presença de Olívia tornou-se cada vez mais distinta e assim como seu perfume onipresente, onde quer que eu fosse podia senti-la perto de mim e, como se todas as preces que haviam sido rezadas por sua alma não tivessem sido suficientes para lhe prover a paz eterna, nos dias que se seguiram à sua missa de sétimo, seu espírito foi tomando forma até transforma-se em uma presença corpórea e constante. Naqueles dias, recebi a visita de meu advogado que veio me colocar a par do andamento do processo em que se discutia meu direito ao dote de minha esposa tendo em vista seu falecimento ter se dado em menos de um ano de nossas bodas. Alegou que havia clausulas no contrato pré-nupcial a serem observadas, entretanto, meu entendimento encontrava-se de tal modo comprometido pelo uso contínuo do ópio, que sequer pude compreender uma palavra do que ele dizia. Ele, percebendo minha triste condição e crendo que tal decadência era fruto de um coração que sofria a dor do amor perdido, pediu-me licença e comprometeu-se a retornar quando minha situação se mostrasse mais favorável. Tentei dizer a ele que não existia amor, apenas ódio, mas de minha boca saíram apenas palavras desconexas e ele se despediu com um olhar condescendente que tornou minha humilhação ainda mais completa. A presença de Olívia tornou meus dias e noites inquietos e repletos de sons furtivos e movimentos difusos. A casa parecia estar sob o total domínio de Olivia que deixava sua presença óbvia ao fazer com que as cortinas se movessem sem o menor sinal de brisa no interior da casa ou que meus objetos de uso diário desaparecessem para serem encontrados logo depois em lugares impossíveis. Enchia o ar com seus sussurros baixos e intensos ou com lufadas de vento em cômodos totalmente fechados que apenas eu podia ouvir e sentir. Manifestava-se nas sombras à contraluz que se moviam pelas paredes ou no som de passos leves sobre o carpete e ao redor de meu leito a qualquer hora do dia ou da noite e, como se para provar que sua presença se fortalecia cada vez mais, certa manhã encontrei, sobre a mesa de meu escritório, uma folha de papel onde se lia a palavra assassino escrita mais de uma centena de vezes, numa caligrafia límpida e elegante que reconheci como sendo a minha que ela, por certo, imitara. Minha alma adoeceu tomada pela lembrança daqueles olhos baços e do som vago que havia me acusado e por aquela presença que me oprimia de tal modo que eu já não podia dormir, assim como não podia comer ou beber enojado pelo aroma do sândalo que nada era capaz de expulsar. Já não podia mais encarar aqueles olhos obsessivos que me seguiam por onde quer que eu fosse e dos quais nem mesmo o láudano ou o absinto podiam me proteger. As visões alucinantes e as vozes profanas me atormentavam assim como os movimentos que eu percebia. Tudo aquilo somado ao sempre presente aroma de sândalo, criaram em mim uma mescla de ansiedade e terror até que no décimo quarto dia após o falecimento de Olivia, após uma alta dose de ópio, eu enfim dormia um sono leve quando fui despertado pela pressão de lábios gélidos sobre meus lábios no exato momento em que as sombras do fim do dia invadiram meu quarto e tocaram meu leito. Aquilo me foi tão pavoroso que decidi deixar o casarão imediatamente e para sempre, pois não suportaria passar sequer mais uma noite em companhia daquele espírito maligno que se apegara a mim como se fosse minha própria sombra e que insistia em me atormentar. Levando comigo apenas as poucas joias que eu permitira a Olivia manter em nossa casa - um ou dois pares de brincos de pérolas, uma pequena corrente e um relicário de ouro que guardava minha imagem -, deixei o casarão sombrio e decadente sob uma forte tempestade. O caminho para fora de minha propriedade encontrava-se em péssimo estado de conservação de modo que nem mesmo as fortes ancas do garanhão foram capazes de me conduzir pela estrada enlameada. Atolados antes mesmo de deixarmos o terreno que pertencia à minha família, o cocheiro, temendo minha reação violenta, sugeriu que deixássemos a viagem até a cidade para o dia seguinte e eu, tomado pelo ódio, arranquei de suas mãos o chicote e pus-me a castigar com violência enlouquecida o lombo do cavalo que espumava pela boca, tentando com isso força-lo a seguir em frente. Exausto e sem qualquer sucesso, senti minhas pernas enfraquecerem e cai em meio à lama com a dignidade despedaçada e consciente de que teria que voltar para casa caminhando. Então, deixei tudo para trás e iniciei o caminho de volta chafurdando meus pés no barro vermelho e encharcado pela chuva que caia sem trégua. O caminho foi difícil e cansativo e quando eu estava há cerca de trezentos metros da casa, um forte clarão cortou o céu e iluminou o mundo e eu pude ver, de forma clara e indistinta, a forma de Olivia que do alto do torreão sul me observava. Crendo que ela, com o poder que é concedido aos entes sobrenaturais, havia conjurado aquela tempestade tão fora de época para me impedir de partir, fui possuído por uma ira demoníaca e, tresloucado, corri em direção ao cemitério de minha família onde me lancei sobre a terra ainda fofa que cobria o túmulo de minha esposa e com as mãos escavei até encontrar a madeira de seu caixão. Dos meus dedos em carne viva vertia sangue e a água vermelha escorria sobre a madeira branca enquanto eu lutava para abri-la e, quando enfim consegui erguer a tampa que mantinha o corpo de Olivia protegido e pude olhar para dentro de sua morada final, senti que minha visão ficava turva e que desfalecia.


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