Uma prece aos mortos (II)

Parte II


"Ela chegava e partia como uma sombra." E. A. Poe

O aroma pungente do perfume de Olivia despertou-me com a intensidade de um aguaceiro. Levantei-me sobressaltado com a nítida e absurda sensação de que ela estava em meu quarto. Com o coração aos pulos, olhei ao redor esperando vê-la ali em pé, mas não havia ninguém e fui obrigado a deixar o aposento ainda em mangas de camisa para não sufocar. Já no corredor, lutando para controlar a onda de náusea que aquele cheiro havia me provocado e arfando pela necessidade de ar puro, gritei chamando pelos criados e ordenei que lavassem tudo que havia ali, que esfregassem o chão, os móveis, as cortinas e que se necessário fosse colocassem a casa a baixo, mas que livrassem meu quarto daquela presença agourenta. Após me recuperar do intenso mal-estar que o aroma de sândalo me provocara, preparei-me e segui para a missa de sétimo dia de minha esposa que teria lugar na catedral no centro da cidade. Confesso que derrubei uma ou duas lágrimas tocado pela beleza melancólica das mil velas que iluminavam a nave central da igreja ornamentada com lírios brancos que se espalhavam sob os olhares piedosos das dezenas de imagens de Santos e Santas. A cerimônia foi longa e cansativa e apesar de conhecer toda aquela ladainha repetida em coro que ecoava pela igreja, sem me importar se alguém notaria meu silêncio e sem qualquer remorso, dei-me o direito de não proferir prece alguma por aquela alma que parecia não ter pecados. Estava exausto e o único pensamento que ocupou a minha mente durante todo o ritual celebrado por vozes que pareciam vir do além para nos falar em uma língua morta há muito tempo, era deixar aquele lugar o mais rápido possível e ter minha vida despreocupada de volta. Finalizada a infinidade de cânticos, orações e homilias, recebi os cumprimentos dos presentes na porta da catedral, onde há tão pouco tempo nosso casamento havia sido celebrado. Ri-me imaginando que naquele dia eu não poderia imaginar que minha prisão seria tão breve, enquanto permaneci ali por um período que me pareceu eterno, em pé ao lado dos pais de Olívia que choravam sem qualquer pudor. Aquele tipo de demonstração pública de sentimentalismo era típica dos burgueses. Os novos ricos! Pessoas com muito dinheiro, mas sem qualquer classe, que compravam títulos por meio de casamentos arranjados acreditando que o dinheiro lhes tornaria parte da nobreza e, assim, enganavam-se a si mesmos, pois jamais alcançariam a elegância e o porte daqueles que nasciam com o sangue azul. Sem suportar mais um minuto daquele teatro ridículo, me despedi sem dar explicações. Não iria participar da recepção preparada na casa dos pais de Olivia. Não suportava mais fingir tristeza quando tinha o coração radiante em júbilo por não mais depender da mísera mesada que recebia de meu pai e, especialmente, por estar livre daqueles laços que me prenderam sem nada significar para mim, mas que haviam pesavam sobre meus ombros como as correntes nas galés. Eu era um homem livre novamente. Livre e rico. Então, saí dali e segui diretamente para o melhor bordel da cidade onde desfrutei de tudo o que o dinheiro de Olívia podia me dar. Foram momentos de tão intenso prazer que acabei por me esquecer completamente daquela criatura pequena e sensível que fizera parte de minha vida. Dias depois, quando voltei para casa a fim de me recuperar do excesso de álcool, láudano e mulheres, constatei, para meu total espanto, que o aroma de sândalo ainda estava lá mais forte e onipresente. Os criados juraram ter lavado tudo conforme eu havia ordenado, entretanto, cada canto da casa estava embebido no cheiro doce e enjoativo que conforme me pareceu, apenas eu podia sentir. Durante o transcorrer do dia, me dei conta de que o perfume de Olivia impregnava não apenas meu olfato, mas também meu paladar, maculando a comida, a água e até mesmo o vinho trazido do mais profundo de minha adega. Não pude comer nada, pois aquele cheiro que agora se tornara uma presença, havia tomado tudo e, não obstante a irritação que toda aquela situação me causara, outra questão se apresentou a mim logo após o almoço intocado. Fui informado de que, por razões que meu advogado não soube esclarecer, os bens que eu havia herdado com a morte de Olivia ainda não tinham sido transferidos para meu nome, o que me exasperou profundamente. Mortificado pela raiva, compreendi imediatamente o nefasto significado daquilo: mais uma vez eu teria que adiar a retomada de minha liberdade. Era necessário garantir que minha herança estivesse assegurada, pois, além de não dispor de recursos para manter aquela vida desregrada, temia que os pais de minha falecida esposa, em sua sovinice, estivessem tramando me privar daquilo que era meu por direito. Eu precisava estar de posse de todas as minhas faculdades mentais para não ser enganado, então, ordenei aos criados que me preparasse um banho, um café forte e me trouxessem o contrato pré-nupcial e todos os documentos referentes aos bens de Olivia para que eu pudesse estudá-los com cuidado e atenção. Naquela mesma tarde, sentei-me em meu escritório decidido a não dormir até que tivesse revisado todos aqueles papéis que se acumularam sobre minha mesa em uma pilha homérica, porém, a fome somada ao maldito cheiro de sândalo entorpeciam meus sentidos, então, apesar do frio invernal, resolvi abrir as janelas a fim de permitir ao ar circular. Lá fora, o luar lambia a campina que se estendia até as colinas distantes. A noite clara e o terreno plano permitam-me ver longe. Por alguns momentos contemplei a vastidão sentindo o ar puro e frio da noite encher meus pulmões revigorando meus sentidos. Em dado momento, percebi uma pequena mancha branca e disforme ao longe. A distância não me permitia distingui-la, mas eu podia notar que ela se movia como se inflada pelo vento. Esfreguei os olhos para desembaçar a vista e quando os abri novamente a mancha branca tinha se transformado em uma forma que ia se tornando cada vez mais completa e definida à medida que se aproximava. Meu coração batia pesado, como se pressentindo o perigo, porém, minhas pernas não obedeciam à ordem de afastar-me dali. O ar da noite tornou-se mais gélido e o vento que me banhava uivou e trouxe consigo um suspiro suave e indistinto que resvalou em meu rosto e sussurrou “assassino”. Tomado pelo mais completo horror, bati com força as janelas no exato momento em que a mancha branca chocou-se de encontro ao vidro e pude ver cara-a-acara os olhos que já não eram doces e gentis, mas que haviam se transformado em olhos de cobra que me olhavam sem piscar e os lábios que se abriram em um sorriso cruel e zombeteiro. Mal aquele demônio me lançou seu olhar de trevas, desmaiei. Fui encontrado pelos criados apenas na manhã seguinte, tiritando de frio e delirando em febre enquanto os papéis e documentos que eu não chegara a analisar ardiam no que restara do fogo da noite anterior que crepitava na lareira e lentamente extinguia-se.

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