VERMETRO

Era um som que parecia vir do trem do metrô, do duto de ventilação. Olhando para as pessoas não pude notar que também ouviam, ou se ouviam pareciam ignorar. Um grande número deles com os fones plugados nos ouvidos interiorizavam suas intenções. Mas embora nem todos ouvissem, estava começando a me incomodar aquele ruído. Era caminhante, ouvi-lo há alguns minutos distante e agora estava aqui bem próximo à porta onde eu me recostara. Desci e caminhava para a saída leste. As pessoas foram se dispersando e eu agora escutava um som mole, gelatinoso, como algo gosmento que se arrasta. Quando olhei tinha um verme do tamanho de um lagarto adulto do meu lado. Seu corpo contraía-se e expandia-se no movimento ventral. Seus anéis ao longo do corpo retraíam e relaxavam e estranhamente olhando para ele, ele pareceu olhar para mim. Seus olhos eram no topo da cabeça e redondos, tinha um focinho alongado e chato com narinas como fendas estreitas nas extremidades, bem afastadas. Sua boca qual uma ventosa era recheada de dentes que se sobrepunham uns aos outros em filas crescentes até alcançarem o tamanho de um dedo mindinho.

Quando eu notei a criatura estranha eu já me afastava da saída e desviei sem nem perceber para aquele lugar em que agora estava. Ali era algum tipo de garagem ou depósito. Tinham baldes, rodos e todo material de limpeza e manutenção necessários para o expediente operacional. Eu só me preocupava em seguir o verme bisonho, que não parecia com nenhuma criatura que eu já tinha visto. O verme subiu uma porta de ferro e apoiando seu corpo sobre a maçaneta fez com que ela descesse e a porta abrisse. Achei aquilo extraordinário e pela primeira vez me perguntei se não estava sonhando. E desci as escadas atrás do bicho. O rastro viscoso e brilhante que ele deixava tinha um cheiro e um aspecto que me causavam repulsa. Por fim depois daquela longa escadaria mais uma porta, a qual o verme do mesmo jeito que a primeira adentrou e aí um longo túnel à frente, como uma escavação de minhoca. Então percebi que outros vermes como aquele se esgueiravam no escuro. Ouvia seu arrastar asqueroso, seus olhos me observando. Persegui o verme no túnel por mais uns dois quilômetros. A sinuosidade fazia-o perde-se de minhas vistas em alguns momentos e a fraca luz prejudicava a visibilidade. Agora o túnel expandia-se assustadoramente em uma caverna. Formações tão antigas quanto a própria terra, me impressionavam pela beleza e assombro.

O verme descia até o centro que ia estreitando-se como um cone e depois de muito andar, porque a caverna era tremendamente grande, um buraco engoliu o verme que caia lá embaixo. Eu agachei-me para olhar mas não via o chão. Tive medo, mas como voltar? Não penso que saberia o caminho. Joguei-me às cegas atrás do verme. Depois de um tempo que pareceu ser muito longo eu caí, e quando me estatelei no chão duro de pedra não senti dor. Aí percebi que na verdade caíra sobre um tapete feito por vermes numerosos que forravam o chão como musgo. E em derredor só vermes, aos milhares, milhões. Ao entender o que acontecia, porque todos os vermes estavam parados, como que atentos à alguma coisa ou alguém, notei que sobre uma pedra mais alta encontrava-se o verme que eu perseguira até ali. Ele discursava para os demais, que escutavam. O que eu discernia eram sons nasalados como se se tentasse falar coberto por lama. A agudeza dos sons em alguns momentos, irritavam demais os ouvidos, a ponto de ter que tapá-los. Aquelas minhocas de outro mundo ignoravam a minha presença ali e continuavam a espécie de celebração que praticavam, após o que cada uma delas foi se atirando em um segundo buraco, muito menor àquele que eu caíra, do tamanho exato de uma pessoa de porte médio e eu esperava tediosamente todas elas se lançarem no abismo. Depois de todas eu também me joguei e o que via era o céu. Um céu diferente do visto na terra, sem nuvens, manchado de cores diversas que dispersavam na atmosfera poeiras gasosas que fixavam-se formando ondulações irregulares de laranjas, roxos e vermelhos. Cai num deserto de areias escaldantes. Sentia os vermes se mexerem, vinham de todas as partes em formação concêntrica tendo como alvo eu mesmo. Comecei a me apavorar e não tinha para onde escapar.

Em desespero comecei a chutá-los, mas eles me mordiam e chutes não resolviam contra eles, eram fortes, sentia que os chutes mais me machucavam que a eles. Centenas de criaturas emergiam da areia e vinham reforçar o exército já numeroso das demais.

Caí já sem forças para lutar. Os monstros vomitavam um liquido negro e espesso sobre mim. Aguardei o momento em que minha carne se desmancharia e os vermes malditos ingeririam o meu corpo ainda vivo, mas isso não aconteceu. Ao invés disso acordei transformado em um verme horrendo. A primeira sensação foi a mudança de estrutura corporal. Transformado em um verme diminuto comparado à forma humana, estava agora do tamanha de uma das minhas pernas e o fato de não ter mãos ou pés, braços, pernas, o ventre encostado no chão, os olhos afastados um do outro, me reviravam o estomago.

Eu seguia no meio dos vermes, todos alinhados como soldados iam em frente e eu sem saber direito por que nem para onde, só ia com eles. A voz eletrônica anunciava a próxima estação, era a minha parada, ainda bem que acordei antes. Algumas pessoas me encaravam de forma estranha enquanto me dirigia à porta. Será que todas estavam ouvindo aquele som? Um som mole, gelatinoso, como algo gosmento que se arrasta.


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